segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

COM S.PAULO À ESPERA DA VINDA DE CRISTO - Conclusão


Na noite de Natal

Terminamos este caminho do Advento, à volta da mesa, na noite santa de Natal. Em família, proclama-se a Palavra de Deus, acende-se uma vela e depois toda a família reza.

Da escritura

“Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens!” (Tit 2, 11)

“O verbo fez-se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14) 

Oração

Senhor Jesus Cristo,

Vós sois o Menino que nasceu para nós,

sois o Filho que nos foi dado por Deus Pai.

Nesta noite de alegria,

queremos proclamar que Vós sois o nosso Deus,

sois o nosso Conselheiro Admirável,

sois o Príncipe da Paz!

Vós sois Luz

para todos os povos em trevas,

sois o Salvador

de toda a humanidade!

 

Texto: Cadernos Ano Paulino, nº 3

Pintura: Josefa d’Óbidos

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

COM S.PAULO À ESPERA DA VINDA DE CRISTO - 3ª Parte


Esperar na Alegria!

3ª semana 

S. Paulo desafia-nos a viver o Advento em alegria constante porque Deus é fiel ao convite que nos dirigiu no Baptismo e cumprirá todas as suas promessas.

A alegria nasce da certeza de que o Ungido do Senhor vem, com a força do Espírito, para curar e libertar, para anunciar e proclamar a notícia de um tempo novo. A minha, a tua alegria, constrói-se em quê?

Com Maria, esperar o Mistério!

4ª semana 

Maria é o rosto da esperança de todo o povo de Israel. Ao longo de séculos, desde Abraão até Maria, Israel aguardou, no meio das alegrias e das derrotas da sua história, a realização da Promessa que Deus tinha feito: uma aliança na qual Ele seria para nós um Pai e nós seríamos, para Ele, filhos. Com Maria acolhamos o Mistério do amor de Deus por todos os homens, que se revela neste nascimento. 

Texto: Cadernos Ano Paulino, nº 3

Foto: Lusa

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

COM S.PAULO À ESPERA DA VINDA DE CRISTO - 2ª Parte


Esperar pelo testemunho!

1ª semana

 

Na primeira semana do Advento, somos convidados a (re)descobrir os dons que Deus colocou nas nossas mãos. É próprio de todo o dom recebido tornar-se missão: tudo o que Deus nos dá é para partilhar como os outros. Somos convidados a uma esperança activa, por palavras e obras, em cada circunstância (família, emprego, escola, paróquia…) Como diz S. Paulo, “fostes enriquecidos em toda a palavra e em todo o conhecimento para se tornar firme em vós o testemunho de Cristo”. (1Cor 1, 6-7)

 

Esperar com a palavra!

2ª semana

O Advento convida-nos a colocar a nossa vida concreta diante da Palavra de Deus. Quando lemos ou ouvimos proclamar os textos da Bíblia, é o próprio Deus que nos ensina e enriqueces com a sua sabedoria. Somos desafiados a descobrir, no itinerário de fé e de vida das personagens bíblicas, o nosso próprio caminho, na certeza que somos enriquecidos com a Palavra.

Levar a Palavra de Deus é fortalecer a esperança dos homens. Encarnar a Palavra de Deus é dizer que a Palavra do Senhor dá sentido às nossas esperanças, alegrias, trevas e preocupações!

Texto: Cadernos Ano Paulino, nº 3

Foto: Lusa

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

COM S.PAULO À ESPERA DA VINDA DE CRISTO


Bem sabemos como toda a criação geme e sofre as dores de parto até ao presente. Também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos no nosso íntimo, aguardando a adopção filial, a libertação do nosso corpo. De facto, foi na esperança que fomos salvos. Ora uma esperança naquilo que se vê não é esperança. Quem é que vai esperar aquilo que já está a ver? Mas, se é o que não vemos que esperamos, então é com paciência que o temos de aguardar.

(Rom 8, 22-25)

Vinde, Senhor Jesus!

Vinde, Senhor!

Vinde ao vosso mundo, na forma que vós sabeis.

Vinde onde há injustiça e violência.

Vinde aos campos de refugiados, em Darfur e em Kivu do Norte e em tantos lugares do mundo.

Vinde onde dominam as drogas.

Vinde também aos ricos que vos esqueceram e que vivem só para si mesmos.

Vinde onde sois desconhecido.

Vinde ao vosso mundo e renovai o mundo de hoje, nossos corações.

Vinde e renovai a nossa vida, para que nós mesmos possamos ser luz de Deus.

Neste sentido rezamos com São Paulo: Jesus!

e rezamos para que Cristo esteja realmente presente hoje no nosso mundo e o renove.

(Bento BVI)

A Igreja diz-nos… 

Eis chegado o tempo tão celebrado e solene que outrora os Patriarcas e os Profetas tão ardentemente desejaram; o tempo que a Igreja sempre tem celebrado solenemente, e que também nós devemos santificar  em todo o momento com fervor, dando graças ao Pai eterno pela infinita misericórdia que nos revelou neste mistério: Ele enviou-nos seu Filho Unigénito, pelo imenso amor que tem aos homens, para nos convidar para o Céu, nos revelar os mistérios do seu Reino, nos mostrar a luz da verdade, nos ensinar o caminho da perfeição, nos enriquecer com os tesouros da sua Graça e, enfim, nos adoptar como filhos seus e herdeiros da vida eterna.

Ao celebrar todos os anos este mistério, a Igreja convida-nos a renovar perpetuamente a memória do amor infinito que Deus mostrou para connosco; e ao mesmo tempo nos ensina que o advento de Cristo não foi apenas para os seus contemporâneos, mas que a sua eficácia nos é comunicada a todos nós, se quisermos receber, mediante a fé e os sacramentos, a graça que nos mereceu, e orientar de acordo com ela a nossa vida segundo os seus mandamentos.

A Igreja espera fazer-nos compreender que assim como Ele veio uma vez, revestido da nossa carne, a este mundo, também está disposto, se não oferecermos resistência, a vir de novo, em qualquer hora e momento, para habitar espiritualmente em nós.

Por isso, a Igreja, como Mãe, ensina-nos durante este tempo, com diversas celebrações, a receber de coração agradecido este benefício tão grande e a enriquecer-nos com seu fruto, de modo que o nosso espírito se disponha para a vinda de Cristo nosso Senhor, com tanta solicitude como se Ele estivesse para vir novamente ao mundo e com a mesma diligência e esperança com que os Patriarcas do Antigo Testamento nos ensinaram, tanto em palavras com em exemplos, a preparar a sua vinda.

(Das Cartas Pastorais de S. Carlos Borromeu)

Texto: Cadernos Ano Paulino, nº 3

Pintura: Josefa d'Óbidos - Adoração dos Pastores

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

OS DEZ GRANDES DESAFIOS PARA A MISSÃO DO NOSSO TEMPO - 2ª Parte

6. Vivemos num mundo em que a mulher toma cada vez mais protagonismo na construção da nova sociedade.

Senhor, ajuda-nos a lutar pela igualdade e responsabilidade de todas as pessoas, criadas à tua imagem e semelhança, e abre-nos à diversidade dos ministérios e dos seus agentes.

7. Vivemos num mundo em que se sente cada vez mais a necessidade de um empenho religioso para desenvolver a própria personalidade.

Senhor, ajudai as comunidades de crentes a ter um olhar universal com os horizontes do seu próprio olhar, aberto para aqueles que procuram viver a sua fé noutros espaços diferentes dos nossos.

8. Vivemos numa Igreja Missionária que reconhece a Igreja local como protagonista e foco da irradiação da Missão.

Senhor, ajuda-nos a trabalhar na animação missionária, tanto nas nossas Igrejas de origem como nas Igrejas a que somos enviados, e a fazer delas o ponde de irradiação da Missão.

9. Vivemos numa Igreja em que os leigos assumem cada vez mais o seu papel activo na construção do Reino de Deus.

Senhor, ajuda-nos a intensificar o papel insubstituível dos leigos na tua Missão e a partilhar com eles o nosso carisma e a nossa vocação missionária. 

10. Vivemos numa Igreja em que a Missão é cada vez mais identificada com “Missão de Deus” e só a partir da intimidade com Ele é que nos tornamos seus missionários.

Senhor, ajuda-nos a fazer do nosso compromisso missionário um experiência de fé e um espaço de partilha do teu amor e da tua paixão pela humanidade. 

“Uma rosa não tem necessidade de pregar; basta-lhe comunicar o seu perfume. O perfume é o seu único sermão” (Gandhi, o Evangelho da rosa)

(Fim do Post) 

Autor: ATN

Vida Consagrada

Novembro 2007

Foto: João Cláudio

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

OS DEZ GRANDES DESAFIOS PARA A MISSÃO DO NOSSO TEMPO

1. O número dos que não conhecem Cristo aumenta continuamente.

Senhor, ajuda-nos a olhar para além das fronteiras visíveis da Igreja, tanto nos meios urbanos como nos rurais, tanto no país em que vivemos como nas terras longínquas.

2. Vivemos num mundo em que o fosso  entre pobres e ricos não cessa de crescer; um mundo em que as vítimas da injustiça e da exclusão se alarga cada vez mais.

Senhor, ajuda-nos a ser testemunhas do teu Evangelho, nas margens da sociedade, entre as crianças da rua e entre todas as vítimas da exclusão social.

3. Vivemos num mundo onde a consciência da identidade cultural e os direitos humanos são cada vez mais uma exigência para a salvaguarda da dignidade da pessoa.

Senhor, ajuda-nos a reconhecer a largueza das fronteiras do teu Reino que nos ultrapassam e a presença que nos precede, nos povos e nas culturas que queremos evangelizar.

4. Vivemos num mundo em que as tensões e os conflitos entre as diversas religiões se agravam e em que o fenómeno religioso toma cada vez mais importância na vida social e política.

Senhor, nós acreditamos que o “choque das civilizações e das religiões” não é uma fatalidade; ajuda-nos a abrir o nosso coração ao acolhimento e ao diálogo com as religiões diferentes da nossa. 

5. Vivemos num mundo em que os meios de comunicação social se impõem cada vez mais, criando uma nova cultura.

Senhor, ajuda-nos a fazer da comunicação social uma mesa da tua Palavra, que leve o Evangelho a todos os espaços humanos. 

(Continua no próximo Post) 

Autor: ATN

Vida Consagrada

Novembro 2007

Foto: Lusa

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

MISSÃO CRISTÃ: NOVOS PARADIGMAS - (FIM DO POST)


Presenças e ausências

O Congresso missionário exerceu um notável apelo na Igreja portuguesa e reuniu cerca de um milhar de pessoas: muitos membros dos institutos missionários e religiosos, e um grande número de leigos, na sua maioria a eles ligados. Algumas dioceses marcaram presença, com os seus bispos, párocos e membros de grupos de leigos. Os jovens estiveram presentes em grande número, confirmando que o mundo juvenil, do voluntariado e laicado missionários, continua a dar mostras de vitalidade.

As oportunidades para a participação activa dos congressistas na reflexão e aprofundamentos dos temas não foram muitas. Foi sobretudo no ateliê por dioceses que eles puderam reagir mais espontaneamente às temáticas apresentadas e à situação da missão cristã no contexto das paróquias e dioceses. Os momentos de partilha das experiências dos leigos e voluntários alargaram a participação dos leigos e sublinharam o valor do seu testemunho e das suas iniciativas missionárias.

Os participantes representavam mais os institutos missionários e os grupos a eles ligados do que as dioceses. Párocos, grupos paroquiais, a participar neste congresso foram poucos, o que acentuou a distância que existe entre estas iniciativas missionárias (as anuais Jornadas Missionárias e este congresso) e as dioceses e as paróquias. Como encurtar esta distância e interessar mais os párocos e grupos paroquiais pela missão? Como ajudar os institutos missionários a se inserirem mais, com as suas iniciativas de animação missionária, no contexto das igrejas locais e superarem a situação existente de serem força eclesial que fazem um trabalho paralelo, por conta própria? No seu entusiasmo e idealismo, os membros dos institutos missionários, e os grupos de leigos a eles ligados, tendem a responsabilizar as igrejas locais pela sua, delas, falta de interesse missionário, acabam por assumir uma atitude crítica, ecoando as lamentações de sempre, muitas delas à espera de resposta e que, possivelmente ainda não a receberam neste congresso.

O congresso interessou-se pelo laicado e voluntariado missionários promovendo uma «feira do voluntariado», uma exposição sobre os vários grupos e actividades, e sobretudo dedicando uma reflexão de fundo «aos novos espaços dos leigos na missão». A reflexão foi oferecida pela P.e Vaz Pinto, SJ, que, a partir do itinerário percorrido pelos Leigos para o Desenvolvimento, desmascarou as «pseudovocações» (romanticismo, aventureirismo, fugas várias… em que se podem enredar os jovens) e acentuou a necessidade da formação e preparação para a missão, tanto em termos de formação cristã como profissional. O desafio para os leigos é «não partir para criar dependências, mas independências», ajudar as pessoas a serem autónomas, aliando sempre «o serviço da fé com a promoção da justiça».

 

Em termos de participantes, os párocos e as paróquias não foram os únicos ausentes. Grandes ausentes foram igualmente as novas comunidades e movimentos, que são também protagonistas da missão cristã no mundo, ao proporem caminhos novos de anúncio e de iniciação cristã. Os institutos missionários, as dioceses e paróquias tendem a olhá-los com desconfiança, mas tanto o papa actual como o seu antecessor sugeriram uma linha de unidade e diálogo entre os responsáveis eclesiais (bispos e padres), os institutos missionários e religiosos, por um lado, e as novas comunidades e movimentos, por outro. Realizações como esta poderiam ser ocasiões para aprofundar esse desejado diálogo e unidade, em vistas e em nome da missão cristã. Neste congresso de 2008, os movimentos estiveram representados pela presença de um casal dos Focolares, que partilharam o método e os caminhos de anúncio e formação cristã típicos deste movimento.

Pe. MANUEL FERREIRA

Missionário Comboniano

Texto: Revista Além Mar (Outubro 2008)

Foto: João Cláudio Fernandes

(Fim do Post)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

MISSÃO CRISTÃ: NOVOS PARADIGMAS - (3ª Parte)


O futuro

Que fica deste congresso? Fica certamente uma rica reflexão teológica e eclesiológica sobre a missão cristã, uma bela experiência de participação eclesial, que, espera-se, os bispos portugueses saibam colher, para reelaborar e oferecer à Igreja em Portugal numa linha de renovação do espírito missionário. A reflexão para fazer as contas e tirar conclusões para o futuro imediato coube a D. Manuel Quintas, até há pouco presidente da Comissão de Missões. Partindo da importância do testemunho e da centralidade da vivência cristã, e valorizando as potencialidades já presentes nas igrejas locais, ele sublinhou a necessidade de «assumir a missão como paradigma da acção pastoral» tanto a nível diocesano como paroquial, de «crescer na comunhão comprometendo-se na missão» e de «criar comunidades com dinamismo missionário». Nas suas conclusões, ele recolheu aspirações familiares aos missionários, que ecoaram mais suma vez neste congresso, como: a formação de grupos missionários nas paróquias, a dinamização dos secretariados missionários diocesanos, a formação missionária dos leigos e dos jovens. Nas suas conclusões ele augurou uma maior colaboração entre os vários protagonistas da missão e sugeriu a criação de «um observatório da missão», uma instância eclesial que seja capaz de acompanhar com espírito missionário e profético o caminho da Igreja e da sociedade.

O Congresso Missionário Nacional 2008 terminou como terminam os acontecimentos desta natureza: com uma reflexão final oferecida pelo presidente da Conferência Episcopal e a Celebração Eucarística no recinto do Santuário de Fátima, presidida pelo patriarca de Lisboa. D. Jorge Ortiga sublinhou a urgência da formação da consciência missionária das pessoas e das comunidades eclesiais e advogou uma «Igreja de rosto missionário» onde todos os membros sejam discípulos e missionários. D. José Policarpo, por sua vez, voltou à mensagem que deixou aos congressistas na abertura: a evangelização não é propriamente um programa, mas, mais bem, uma «loucura de amor que leva a igreja a não desistir de anunciar Cristo, mesmo contra corrente».

Pe. MANUEL FERREIRA

Missionário Comboniano

Texto: Revista Além Mar (Outubro 2008)

Foto: João Cláudio Fernandes

(Continua no próximo Post)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

MISSÃO CRISTÃ: NOVOS PARADIGMAS - (2ª Parte)


Caminhos novos

A reflexão sobre a missão cristã hoje no mundo foi levada a cabo no congresso em dois tempos. Num primeiro foram analisados os «novos caminhos da missão», numa reflexão oferecida pela Pe. José Ornelas, actualmente superior-geral dos Sacerdotes Dehonianos. Tratou-se de uma abordagem mais global na qual foi afirmada a universalidade como dimensão constitutiva da Igreja, que se identifica como comunidade depositária de um evangelho que é de, para, todos. Foi naturalmente sublinhada a multiculturalidade e o facto de a Igreja não se poder identificar nem com uma cultura nem com um poder político; e sublinhou-se que a distinção entre países cristãos e não cristãos é hoje insustentável. A multiculturalidade e a deslocação da Igreja para os países do Sul trazem consequências para as igrejas locais do Norte e o desafio de se passar de um eurocentrismo para um mais claro universalismo. Sem, naturalmente, se cair nos extremos de «demonizar» as igrejas do Norte, a enfrentar sinais de crise, ou «idealizar» as igrejas do Sul, a oferecerem sinais de notável vitalidade. Para actuar os novos paradigmas da missão, concluiu o P.e José Ornelas, é necessário partir de Cristo, já que o anúncio é a dimensão central da missão e as outras vêm depois; e partir da igreja local, já que a igreja local é o sujeito da missão e hoje falamos, portanto, de «todas as igrejas para todo o mundo». Neste sentido, o desafio para a igreja local (paróquia, diocese…) é colocar a evangelização no centro da sua vida, e para os missionários é desenvolverem uma missão em comunhão e fraternidade, longe de protagonismos individuais. O regresso da missão à igreja local tem, assim, nos leigos protagonistas de primeira linha, cujos ministérios é necessário promover. O contexto em que as igrejas locais vivem a missão hoje não pode ser outro senão o do diálogo, do respeito e da reciprocidade.

Num segundo momento, coube ao Dr. João Duque, secretário da Comissão Episcopal da Doutrina da Fé, aprofundar a reflexão teológica sobre a missão. Desenvolvendo o tema «a missão no coração da Igreja» o conhecido teólogo de Braga definiu a missão como «ser a partir de Outro e para o outro», cuja essência é «partir, sair de si para ir ao encontro do outro». Definindo a igreja local como comunidade que existe num determinado espaço e tempo, sublinhou que esta não pode perder a sua universalidade, já que o Deus dos cristãos é um Deus de todos, que envia a todos. Local e universal são duas coordenadas que marcam a vida de cada igreja concreta, chamada a viver uma «universalização localizada» e uma «localização universalizada», a sair de si para ir ao outro, de perto e de longe. O que leva ela para dar aos outros? «Nada, a não ser o facto de ser enviada, o evangelho de quem a envia.»

Pe. MANUEL FERREIRA

Missionário Comboniano

Texto: Revista Além Mar (Outubro 2008)

Foto: João Cláudio Fernandes

(Continua no próximo Post)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

MISSÃO CRISTÃ: NOVOS PARADIGMAS


De 3 a 7 de Setembro passado realizou-se em Fátima o Congresso Missionário Nacional 2008. A colmatar um processo de reflexão e um ano de preparação, a iniciativa pretendeu ser um encontro de Igreja, aberto, um laboratório para pensar e viver a missão cristã hoje, aquém e além fronteiras.

O ponto de partida para o congresso que se propunha «pensar e viver a missão» foi naturalmente uma análise da sociedade e da Igreja em Portugal. A reflexão que começou esta análise coube ao cardeal-patriarca de Lisboa, que falou, na sessão de abertura, sobre «a missão cristã e as incertezas do mundo contemporâneo». Na análise que fazem da sociedade e da Igreja em Portugal, os missionários e as pessoas a eles ligadas tendem a ser algo emocionais, porventura críticos. Por isso, D. José Policarpo não desejou que a sua intervenção fosse vista como crítica das dioceses e do modo com enfrentam a evangelização nos seus territórios e nos seus contextos sociais. As suas palavras, de resto, não se revelaram críticas, mas, mais bem, analíticas da sociedade portuguesa e da sociedade global onde nos inserimos.

Local e global

A intervenção do cardeal-patriarca de Lisboa teve o mérito de fazer ver como a nossa sociedade está condicionada pela sociedade global e pela cultura «plana» que ela promove (o hedonismo, o consumismo, a procura da felicidade aqui e agora) e de ajudar a tomar consciência de que os limites da cultura dominante e a sua falta de certezas (o egocentrismo e o individualismo ético, o ateísmo prático) podem e devem ser vistos, não só como dificuldades, mas também como oportunidades para a missão cristã. O desafio, para esta, é de dar resposta nos momentos cruciais em que a cultura dominante deixa as pessoas sem resposta, é de estar atenta às inquietações do coração humano, de ensinar as pessoas a esperar de novo, depois de experimentarem as desilusões da sociedade e da cultura actuais. Neste sentido, lembrou o cardeal de Lisboa, citando João Paulo II, «evangelizar é sempre remar contra a corrente» e contra muitas resistências… mas algo que vale a pena, essencial para a Igreja. Num outro ponto, mais teológico, a intervenção de D. José Policarpo mostrou como a globalização universaliza as religiões e promove um respeito pelas religiões que as nivela. Neste contexto, o desafio para a missão cristã é redescobrir o carácter único de Cristo, recuperar o sentido de urgência do anúncio cristão e fazer ver a convergência das religiões em Cristo, salvador de todos. 

Analisar e propor

A segunda relação de análise da situação portuguesa coube a D. António Couto, bispo auxiliar de Braga e presidente da Comissão Episcopal de Missões, que falou sobre «as situações ad gentes na Igreja em Portugal». Citando documentos do magistério e de conferências episcopais europeias, o presidente da Comissão Episcopal de Missões falou sobretudo para um público que não estava fisicamente presente neste congresso: os seus colegas bispos, os párocos e responsáveis paroquiais e diocesanos. D. António Couto insistiu na necessidade de conferir ao Cristianismo europeu e português um novo vigor missionário para ajudar os cristãos a sentir e viver a beleza da fé. Ele insistiu nas mudanças de perspectiva (de paradigma) que hoje caracteriza a missão cristã: de uma missão rural para uma missão urbana; de uma evangelização em vistas da salvação das almas e da implantação da Igreja a uma missão que é uma «questão de amor, inadiável e não delegável», que tem na igreja particular o seu sujeito primeiro, que «é fundamento de tudo e deve ter o primado sobre tudo». Para ele, a missão não é apenas um empenho pastoral no meio de outros, mas o horizonte e paradigma constante de toda a acção pastoral. A concluir, o bispo responsável pela comissão de missões apontou propostas concretas aos seus colegas e às dioceses, propostas que vão desde a criação dos centros missionários diocesanos e paroquiais para promoverem a evangelização nos seus contextos, à criação de centros de escuta do Evangelho e de formação e responsabilização dos leigos. O rumo que ele sugeriu é de colocar no centro das actividades o primeiro anúncio cristão, a santidade e autenticidade cristãs, entendidas como «capacidade para sair para fora de si, sair por amor para ir ao encontro do outro e da sociedade».


Pe. MANUEL FERREIRA

Missionário Comboniano

Texto: Revista Além Mar (Outubro 2008)

Foto: João Cláudio Fernandes

(Continua no próximo Post)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

CONGRESSO MISSIONÁRIO 2008, BLOG E VIDA NOVA


Realizou-se, em Fátima, entre 3 a 7 de Setembro, o I Congresso Missionário Nacional. Para os participantes e não só, foi um acontecimento marcante da Igreja Portuguesa, quer pela vivência missionária e riqueza de conteúdos, quer pelas implicações e desafios futuros daí resultantes.

No dizer o Pe. Adélio Torres Neiva (No rescaldo do Congresso Missionário) “antes de mais, sublinhamos a sua realização. Foi um acontecimento que, desde há anos andava a ser sonhado e planeado. Deve-se sobretudo à coragem e persistência da Direcção das Obras Missionárias Pontifícias que, sem olhar a dificuldades, se lançou nesta aventura. A sua preparação e a sua divulgação foram algo que, por si só, já tinha creditado o Congresso.

Efectivamente o seu anúncio foi acolhido e divulgado de tal modo por todos os órgãos de comunicação social mais comprometidos nos espaços da missão, que todos o fizeram seu. Todos ultrapassaram os seus projectos particulares para se abrirem a esta iniciativa que era uma ocasião única de unir as forças a olhar na mesma direcção. O seu anúncio chegou efectivamente a todas as dioceses de Portugal como interpelação e convite”.

Embora o tenhamos bem presente, o Congresso Missionário 2008 faz parte do passado! Com todo este capital de experiência e entusiasmo, sobretudo das camadas mais jovens, como abrir o nosso coração ao sopro do Espírito e aos novos ventos?

A anteceder e na preparação do Congresso, lançámos mão deste blog. Na era das novas tecnologias, a nosso ver, revelou-se um valioso instrumento de trabalho e dinamização. De facto, e de acordo com os nossos dados, foram feitas 5251 visitas e foram vistas 11.289 páginas!

Dadas estas circunstâncias e por sugestão de muitos, decidimos prosseguir com este blog, como espaço de reflexão, diálogo e partilha, tendo em conta o futuro da Missão. Terá agora, no pós-Congresso um novo subtítulo: “REFLEXÃO, PERSPECTIVAS E FUTURO…”

Pretendemos que a dimensão missionária da Igreja em Portugal, seja, por força do Baptismo, mais assumida por cada um de nós.

Pe. Manuel Durães Barbosa, CSSp

Director Nacional OMP

terça-feira, 23 de setembro de 2008

CONGRESSO ONLINE (MAIS LINKS)

Aqui ficam mais alguns links sobre o Congresso

Programa Ecclesia na semana do Congresso

- 2ª Feira:
http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?pagURL=arquivo&tvprog=1115&idpod=16967&formato=flv&pag=arquivo&pagina=2&data_inicio=&data_fim=&prog=1115&quantos=10&escolha=

- 3ª Feira:
http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?pagURL=arquivo&tvprog=1115&idpod=16991&formato=flv&pag=arquivo&pagina=2&data_inicio=&data_fim=&prog=1115&quantos=10&escolha=

- 4ª Feira:
http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?pagURL=arquivo&tvprog=1115&idpod=17018&formato=flv&pag=arquivo&pagina=1&data_inicio=&data_fim=&prog=1115&quantos=10&escolha=

- 5ª Feira:
http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?pagURL=arquivo&tvprog=1115&idpod=17043&formato=flv&pag=arquivo&pagina=1&data_inicio=&data_fim=&prog=1115&quantos=10&escolha=

- 6ª Feira:
http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?pagURL=arquivo&tvprog=1115&idpod=17113&formato=flv&pag=arquivo&pagina=1&data_inicio=&data_fim=&prog=1115&quantos=10&escolha=

ATENÇÃO:
Peço o favor de divulgarem a possibilidade de visualização online do programa Ecclesia (de segunda a sexta) e do programa semanal 70X7. Muitos cristãos desconhecem esta oportunidade. Comparando as visualizações de outros programas religiosos de outras igrejas lá no site, os programas católicos ficam muito atrás. E somos os que dispomos de mais tempo de antena.
Creio que é importante usar este meio de comunicação. O link dos programas, mesmo os que estão em arquivo é:
http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?vid=1&formato=flv&auto=no
No menu do lado esquerdo “entretimento” estão em primeiro e segundo lugar o 70x7 e A fé dos homens (Ecclesia). Basta só clicar.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

FOTOGRAFIAS DO CONGRESSO MISSIONÁRIO

Já estão disponíveis on-line as fotografias do Congresso Missionário 2008.
Para as visualizar basta clicar em:

http://www.opf.pt/congresso/cmn08/index.html

Obras Missionárias Pontifícias
Secretariado do Congresso

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

CONCLUSÕES - CONGRESSO MISSIONÁRIO NACIONAL 2008

Convocados pelo Espírito, por meio dos pastores da Igreja em Portugal, reuniram-se em Fátima, de 3 a 7 de Setembro, oito centenas de participantes portugueses e representantes de diversos países. O dia 6 foi enriquecido com a presença e a juventude do voluntariado missionário.
Dez anos após o Ano Missionário de 1998, o Congresso celebrou, reflectiu e apontou caminhos de futuro para a Missão, a partir do tema: No encontro com Cristo vivo, chamados e enviados para a Missão em Portugal e no mundo, e o lema: Portugal, rasga horizontes, vive a Missão.

Linhas de força

Deus, Trindade de Amor, envia a humanidade toda a fazer do outro um irmão. A Missão é de Deus e, por isso, o baptizado, consciente deste envio ao tomar parte na vida de Cristo, é impelido a ser contemplativo e servo da sua Palavra.
A Missão é tarefa indelegável de cada cristão. Esta concretiza-se no espaço e no tempo da história humana, conhecendo e amando aqueles a quem se é enviado. A vivência comunitária da fé em família, paróquia, diocese ou comunidades de vida consagrada é o testemunho mais credível do anúncio de Deus-Amor.
A Santidade (sair de si por amor) e a Missão (ser enviado por Deus ao diferente) são o húmus vital de todo o cristão e de todas as actividades pastorais.
Com o Concílio Vaticano II (1965), assistimos a uma nova compreensão da Missão. Cada um de nós é, simultaneamente, enviado e destinatário da evangelização. O Espírito é o protagonista da Missão e a Igreja Local o seu sujeito de encarnação e vivência. Nela e a partir dela, surgem e actuam todas as vocações missionárias laicais, consagradas e sacerdotais. O despertar do laicado para a Missão é hoje um dos sinais dos tempos.
Em pleno Ano Paulino, o Apóstolo dos gentios, com o seu itinerário de conversão e missão, é para nós modelo a conhecer melhor e a seguir no zelo e na urgência de evangelizar.
Para além de momento privilegiado de reflexão e partilha, o Congresso foi também uma experiência de comunhão na dor com os nossos irmãos perseguidos na Índia e em outras situações de falta de liberdade religiosa.


Propostas


Sentimos o coração a arder e desejamos que toda esta riqueza possa contribuir para a Igreja em Portugal viver mais em Missão. Por isso, como Congressistas, propomos que:
1. A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) promova uma melhor coordenação e integração das diversas áreas pastorais para todas serem fecundadas pelo dinamismo missionário e anseio de santidade.
2. A CEP, partindo do Congresso Missionário e do Ano Paulino, avive a vocação missionária de todos os cristãos e prepare um documento-base para a Missão em Portugal.
3. Cada Igreja Local incentive a criação de estruturas e dinâmicas que demonstrem a consciência e urgência do anúncio do Evangelho: Secretariado diocesano missionário, grupos missionários paroquiais, semanas de animação missionária, geminações, voluntariado, sacerdotes "fidei Donum", institutos de vida consagrada...
4. Cada diocese promova, oportunamente, um Congresso Missionário Diocesano.
5. Promova-se formação missionária às crianças, jovens, adultos, seminaristas, consagrados e sacerdotes, de acordo com o novo paradigma de Missão.
6. Fomente-se, com espírito de solidariedade e subsidiariedade, a comunhão e a partilha de fé, de pessoas - numa dinâmica de partir e receber - e de bens entre as diversas Igrejas.
7. Ajude-se cada cristão a crescer até à estatura de Cristo: Sacerdote que celebra a liturgia e oferece a sua vida pela salvação de todos; Profeta que proclama a Palavra de Deus e denuncia as injustiças e contravalores da sua sociedade e cultura; e Rei que serve com caridade os mais desprotegidos e excluídos.

Num mundo global e em mudança, à procura de sucesso mas infeliz, queremos viver em Missão e anunciar Cristo Vivo ao mundo, sendo profetas da esperança e rasgando novos horizontes.

Fátima, 7 de Setembro de 2008
Os participantes no congresso missionário nacional
Foto: João Cláudio Fernandes

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A MISSÃO E A MULHER EM S. PAULO

3. A face feminina da linguagem de Paulo

S. Paulo usa muitas vezes expressões e imagens femininas para definir o seu apostolado. A missão tem muito a ver com a maternidade e a paternidade. S. João diz-nos que a missão consiste finalmente em nos fazer filhos de Deus. Pela missão Deus cria-nos e faz-nos seus filhos. O prólogo do Evangelho de S. João faz nascer a missão no seio da Trindade – “No princípio era o Verbo… e o Verbo era Deus” - para fazer descer Deus até nós e nos fazer seus filhos. É esta teologia que esta subjacente nas cartas de S. Paulo.

Diz ele aos Tessalonicenses: Fizemo-nos pequenos entre vós como uma mãe que acalenta os filhinhos que anda a criar (1Tes 2,7). Para S. Paulo, anunciar o Evangelho incluía assumir por todo o povo que evangelizava todos os carinhos e toda a ternura de mãe.

Aos Gálatas: “Meus filhinhos, por quem sinto de novo as dores da maternidade, até que Cristo seja formado em vós” (Gal 4,19). Ser missionário implica correr o risco e as dores desta maternidade.

Aos Coríntios: “Foi leite que vos dei a beber e não alimento sólido, porque ainda o não podíeis suportar” (1 Cor 3,2). Esta imagem de amamentar aqueles a quem anunciamos o Evangelho é uma imagem que vai à raiz da nossa vocação materna para com eles.

Aos Filipenses. “Deus me é testemunha de quanto vos amo a todos com a ternura de Jesus Cristo” (Fil 1,8). A vocação missionária não é uma profissão, mas uma vocação que só o amor pode explicar.

Aos Romanos, Paulo é ainda mais explícito: para descrever o processo doloroso da renovação cristã diz: “Na verdade sabemos que toda a criação tem gemido e sofrido as dores da maternidade até ao presente. E não só ela mas também nós próprios que possuímos as primícias do Espírito, gememos igualmente em nós mesmos, aguardando a filiação adoptiva, a libertação do nosso corpo” (Rom 8, 22-23).

E não esqueçamos que S. Paulo emprega inúmeras vezes a palavra “Espírito” que em hebraico é uma palavra feminina. Espírito é a ternura maternal de Deus.

Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Fim do post)
Foto: João Cláudio Fernandes

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A MISSÃO E A MULHER EM S. PAULO


2. O lugar da mulher nas comunidades de Paulo

No contexto da cultura judaica daquele tempo a mulher não podia participar na vida pública A função da mulher limitava-se ao espaço doméstico e à vida familiar. De facto, como vemos no caso de Marta e Maria do Evangelho, a mulher é quem coordenava o trabalho da casa. Assim, a mulher só podia participar na vida da comunidade se a comunidade se reunisse no interior da casa. E assim aconteceu, pois as comunidades fundadas por Paulo, a partir de um determinado momento, reuniam-se nas casas. Eram as chamadas Igrejas domésticas. Em quase todas as igrejas domésticas, mencionadas nas cartas de Paulo, aparece o nome de uma mulher em cuja casa a comunidade se reunia:

- na casa Priscila e Áquila, tanto em Roma (Rom 16,5) como em Corinto (1 Cor 16,19). Eram comerciantes que se deslocavam pelas grandes cidades.
- na casa de Filémon e Ápia (Flm 2).
- na casa de Lídia, negociante de púrpura, em Filipos (Actos 16,15).
- na casa de Ninfa, na Laodiceia, que chegou a receber uma carta de Paulo, que não foi conservada (Col 4, 15).
- na casa de Filólogo e Júlia (Rom 16, 15).
- na casa de Nereu e de sua irmã (Rom 16, 15).
- na casa de Olímpio (Rom 16, 15).

Lembra Carlos Mesters que, para avaliar a novidade desta iniciativa de Paulo, convém recordar que, naquele tempo, os judeus não permitiam que se criassem comunidades ou sinagogas só de mulheres. Exigiam que, no mínimo, houvesse dez homens para se poder formar uma comunidade. Devido a isso, não havia sinagoga em Filipos, pois ali os cristãos eram apenas um grupo de mulheres. Reuniam-se num oratório, “fora da cidade”, para rezar (Actos 16,13). Assim, Paulo teve a coragem de ir contra o costume do seu povo e permitiu que o grupo de mulheres de Filipos formasse uma comunidade (Actos 16, 13-15).

No entardecer da vida, Paulo procura esboçar um plano de actividade feminina ao serviço da Igrejas. Depois de Febe (Rom 16,1-2), adivinha-se a presença em Éfeso de outras diaconisas encarregadas de assistir aos pobres e aos enfermos (1 Tim 3,11) e um grupo de viúvas igualmente consagradas à oração e ao serviço da Igreja (1 Tim 5,9-10).

O trabalho destas mulheres não foi o dos presbíteros nem o dos evangelistas que eram ministérios instituídos: mesmo assim tiveram grande influência na expansão do Evangelho. Não só contribuíram com a sua profissão mas também com as suas viagens: Áquila e Priscila inserem-se no anúncio do Evangelho em todas as viagens que fazem e por todos os lugares por onde passam.


Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Continua no próximo post)
Foto: Arquivo OMP

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A MISSÃO E A MULHER EM S. PAULO


Palavra de Paulo: Rom 16, 1-16


1. A mulher na missão de Paulo

O final da Carta os Romanos é o melhor documento que nos elucida sobre o papel da mulher na missão e na vida tanto de Paulo como nas comunidades por ele fundadas.

“Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que também é diaconisa na igreja de Cêncreas: recebei-a no Senhor, de um modo digno dos santos, e assisti-a nas actividades em que precisar de vós. Pois também ela tem sido uma protectora para muitos e para mim pessoalmente”.

Não sabemos quais os serviços que ela terá prestado a Paulo, mas devia ser uma pessoa da sua confiança e muito ligada ao seu trabalho pois provavelmente foi ela a portadora desta Carta aos Romanos. Desde muito cedo que a Igreja institui as diaconisas, encarregadas do serviço das mulheres: elas iam visitar ao domicílio as cristãs que habitavam lares pagãos.

“Saudai Priscila e Áquila, meus colaboradores em Jesus Cristo, pessoas que pela minha vida arriscaram a sua cabeça (Rom 16, 3). Foi um casal que colaborou muito com S. Paulo em várias cidades por onde ele passou, chegando mesmo a reunir a comunidade na sua casa (Rom 16,5). Paulo agradece aos dois em seu nome e em nome de todas as comunidades do mundo pagão (Rom 16,4).

“Saudai Maria, que tanto se afadigou por vós” (Rom 16,6).

“Saudai Andrónico e Júnia, meus concidadãos e meus companheiros de prisão, que tão notáveis são entre os Apóstolos e que, inclusivamente, se tornaram cristãos antes de mim” (Rom 16,7). Foram, portanto, eles que prepararam uma comunidade para receber o Evangelho e acabaram, como Paulo, na cadeia.

“Saudai Trifena e Trifosa e a querida Pérside”. S. Paulo diz que todas as três se afadigaram muito no Senhor (Rom 16,12).

“Saudai Rufo e sua mãe, que o é também para mim” (Rom 16, 13). Numa só palavra, Paulo recorda todo um mundo de ternura e afecto desta mulher para com ele, a ponto de lhe chamar sua mãe.

“Saudai Filólogo e Júlia, Nereu e sua irmã, e Olímpio” (16,15). Parece que a comunidade se reunia na casa deles, pois Paulo acrescenta: “todos os a santos que estão com eles”.

Nestas recomendações Paulo recorda muito naturalmente um conjunto de mulheres que colaboraram com ele: umas eram diaconisas, outros apóstolos, outras colaboradoras, outras partilharam com ele a casa, outras estiveram mesmo com ele na prisão. São vários espaços de colaboração missionária, onde a mulher deu o seu testemunho. Algumas delas chegaram mesmo a arriscar a vida por causa do seu ministério. Todas elas são apresentadas como mulheres que colaboram e se afadigam pelos outros nas comunidades. Em dois casos, ofereceram mesmo a sua casa para a comunidade se reunir aí.

Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Continua no próximo post)
Foto: Lúcia Pedrosa

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

S. PAULO E O ESPÍRITO SANTO


4. O grande dom é o próprio Espírito Santo

Quanto aos dons do Espírito Santo, é preciso concentrar a nossa atenção não nos dons mas no doador. O grande dom é o Espírito Santo. Os dons e carismas não são mais que o brilho do Espírito Santo, que é o dom por excelência, o dom que encerra todos os dons. Não podemos separar o Espírito Santo dos seus dons como não podemos separar o carinho ou a ternura de um pai ou de uma mãe do próprio pai ou da própria mãe.

As manifestações do Espírito Santo são o Espírito Santo em acção. Esta acção é infinitamente suave, discreta e livre. O Espírito Santo sopra onde quer e como quer. Os dons do Espírito Santo são para o doador como os raios do sol são para o sol: não se identificam com Ele, mas não existem sem ele. Não podemos ter dons do Espírito Santo sem ter o próprio Espírito Santo. O Espírito Santo não dá esmolas: dá-se a si mesmo. O Espírito Santo é inseparável dos seus dons. Recebendo-o recebemos a fonte de todos os dons. Isto não implica que os dons sejam recebidos da mesma maneira e todos ao mesmo tempo. O Espírito Santo hoje anima-me em vista de tal missão, amanhã pode confiar-me outra. S. Paulo faz uma lista dos dons do Espírito Santo de maneira bastante livre: dá enumerações diversas. É sem dúvida mais uma amostra que um catálogo.

João Paulo II, na exortação que escreveu sobre os Fiéis Leigos, diz que se deve ao Espírito Santo todo um conjunto de coisas novas que acontecem hoje na Igreja: o novo estilo de colaboração entre sacerdotes, religiosos e leigos; a participação dos leigos na liturgia, o anúncio da Palavra de Deus, a catequese, a multiplicação dos serviços confiados aos leigos e por eles assumidos, o florescimento de grupos e associações de espiritualidade e empenhamento laical, a participação cada vez mais significativa da mulheres na vida da Igreja e o seu compromisso na sociedade.

A renovação pastoral missionária da Igreja exige valorizar e estruturar a grande variedade de dons e modos de servir a Missão da Igreja. Lembremos, por exemplo, os ministérios litúrgicos como o diaconado, o leitor, o acólito, o cantor, o monitor, os ministérios pastorais como o serviço da animação missionária, o animador vocacional, o serviço dos pobres. Há serviços seculares que se podem transformar em ministérios eclesiais como o ministério da saúde, da justiça e paz, reconciliação, solidariedade social, acolhimento aos marginalizados, visita aos doentes, acolhimento aos emigrantes, etc.

S. Paulo dá-nos uma amostra de ministérios necessários à Igreja de Corinto, mas cada Igreja pode ter necessidade de outros ministérios e serviços e o Espírito Santo sabe disso melhor que ninguém.

Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Fim do post)
Foto: 9 carismasespirituais

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

S. PAULO E O ESPÍRITO SANTO


3. O Espírito Santo na vida da comunidade: os dons do Espírito Santo

S. Paulo fala do papel do Espírito Santo na comunidade, a propósito de Corinto. Ele tinha evangelizado aquela comunidade com muitos bons resultados. Depois dele, o trabalho foi continuado por outros, nomeadamente por Apolo. Ora alguns anos depois, quando estava em Éfeso, Paulo veio a saber que a comunidade de Corinto estava dividida. Havia lá vários partidos. Uns diziam-se discípulos de Paulo, outros de Apolo, outros de Cefas. S. Paulo viu logo onde estava a origem da divisão: os Coríntios tinham-se fixado mais nos evangelizadores que na mensagem. Tinham feito do Evangelho o que se faz com a sabedoria humana: opta-se pelo partido, não pela mensagem.

É então que Paulo aproveita para falar do Espírito Santo. O valor de uma comunidade cristã não depende de quem a evangeliza mas do Espírito Santo que está nela. Este Espírito é comunicado a todos os membros da comunidade, seja qual for o evangelizador. Um semeia, outra rega, outro recolhe. Mas todos são baptizados no mesmo Espírito. Este Espírito revela-se em cada um dos serviços e carismas e actividades diferentes, pois que é desta colaboração de todos que se faz a comunidade. Uns têm o dom de governar, outros o de ensinar, outros o de profetizar, outros o de curar. É como um corpo vivo, onde cada membro tem uma função própria. Esta função é um dom do Espírito que é o mesmo em todos. Por isso, esta diversidade, em vez de dividir, une. A comunidade está unida pela raiz. Num corpo vivo, membros para respirar, membros para alimentar, membros para mover, membros para pensar, membros para amar. Quem é que pensa dispensar algum destes membros?(1 Cor 12)

É por estes carismas e dons que se vê que o Espírito Santo está vivo na comunidade. Não são competências pessoais, capacidade profissionais adquiridas, mas são dons do Espírito, são luzes que cada um tem e que vêm de Deus. Podem estar ligadas a um cargo mas não são cargos: são ministérios ou carismas, dons do Espírito Santo.

O Espírito Santo desperta em cada um dons que são necessários para edificar a igreja de Cristo. São os dons do Espírito Santo. Todos conhecemos pessoas, umas mais indicadas para dirigir a comunidade, outras para ensinar catequese, outras para defender a justiça e a paz, outros com qualidades para a liturgia, outros para a colaboração missionária ou a visita aos doentes ou para acolher os que chegam de fora. São dons que o Espírito Santo distribui por todos, pois todos são necessários para construir uma igreja viva. É como a construção de um casa: é preciso um arquitecto, um engenheiro, um mestre de obras, pedreiros, pintores, electricistas, canalizadores, sem falar nos que fabricam o cimento, as tintas, os azulejos. Na construção da Igreja é a mesma coisa.

Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Continua no próximo post)
Foto: João Cláudio Fernandes

terça-feira, 26 de agosto de 2008

S. PAULO E O ESPÍRITO SANTO


2. Os frutos do Espírito Santo

É difícil termos uma imagem do Espírito santo. Não temos nenhum retrato seu. O Filho tem um rosto humano, conhecemos a sua história, sabemos onde e quando nasceu, como viveu, como morreu. Temos a sua imagem. Por isso tantos artistas o pintaram, deram-lhe um rosto e tantos escritores escreveram a sua vida.

Do Pai, também Jesus fala mais de 170 vezes e a sua imagem reflecte-se no próprio Jesus. Ele mesmo disse que quem conhecia o Pai o conhecia a Ele. Basta ler o Evangelho para conhecer o Pai.
Mas imaginar o Espírito Santo é mais difícil. Sente-se a sua presença através da Bíblia desde o princípio ao fim. Jesus fala dele como aquele que consolará e ensinará toda a verdade aos discípulos, mas nós não somos capazes de o definir. Não tem rosto. Daí que a própria Bíblia recorra a imagens e símbolos para falar dele: o vento, o sopro, a respiração, o fogo, a pomba, a água, etc. Mas, é claro, são imagens, pois sabemos que o Espírito Santo e pomba ou vento ou fogo não são a mesma coisa.

O Espírito Santo conhece-se sobretudo pela experiência que se tem dele... É como o vento, não se vê mas sente-se quando nos sacode; é como o amor que não se vê mas nos ilumina e aquece.
Na Igreja primitiva, a experiência do Espírito foi feita através de um conjunto de fenómenos extraordinários a que chamamos Pentecostes e outras intervenções maravilhosas como o falar línguas, fazer profecias, etc. O Espírito Santo comunicava às pessoas certos dons que a pessoa por si mesmo não tinha. S. Paulo tem todo um capítulo para ajudar os cristãos a fazer o devido discernimento destes sinais extraordinários da presença do Espírito Santo (1 Cor 14).

Mas, à medida que a comunidade cristã foi amadurecendo e crescendo na fé, uma nova imagem do Espírito Santo se começa a desenhar. O Espírito Santo começa a ser alguém que está continuamente presente na vida da Igreja, que não intervém só em momentos extraordinários, mas que está em cada um de forma permanente. O cristão é como um templo onde mora a Santíssima Trindade. S. Paulo multiplica os textos para mostrar que de facto o Espírito Santo tem a sua morada no coração de cada um.

É aqui que aparecem os frutos do Espírito Santo. São os seus frutos em nós que nos revelam o verdadeiro rosto do Espírito Santo. S. Paulo fala destes frutos em vários lugares, ao longo das suas cartas. Aos Romanos diz que é Ele que nos faz filhos de Deus. “Todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito que vos escravize, vos volte a encher de medo, mas recebestes um Espírito que faz de vós filhos adoptivos. É por Ele que clamamos: Abbá, ó Pai. Esse mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, pressupondo que com Ele sofremos, para com Ele sermos também glorificados” (Rom 8, 14-17). Aos Efésios, aponta como frutos do Espírito Santo: a bondade, a justiça e a verdade. E aos Gálatas, dá uma lista maior dos frutos do Espírito Santo: o amor, a paz, a paciência, a amabilidade, a bondade, a fidelidade, a modéstia, o domínio de si mesmo (Gal 5, 22)). São certas qualidades que vemos nas pessoas que nos fazem descobrir a presença do Espírito Santo.

A alegria, a paz, a bondade de tal pessoa são frutos do Espírito Santo. Por aqui vemos que o Espírito Santo é, de facto, alguém que vive connosco, misturado na nossa própria vida.
A caridade ou o amor - todos os gestos de caridade e amor, todas as provas de amor e ternura, quando neles não há egoísmo e interesse, são obra do Espírito Santo.
A paz e todos os gestos de reconciliação, de perdão e acolhimento ou misericórdia.
Todos os gestos de partilha, de festa, de solidariedade e comunhão.
A bondade e tudo o que é dar as mãos, compreender, ajudar, servir.
A paciência e tudo o que é respeito pelo outro, o dar-lhe o tempo a que tem direito, o respeitar os seus valores e o seu crescimento, são sinais que o Espírito Santo está lá.

Tudo que é vida em graça, tudo o que a graça produz em nós é sinal que o Espírito Santo está em nós. O Espírito Santo é como a respiração da vida do cristão: não se vê mas sem ela não se consegue viver.


Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Continua no próximo post)
Foto: João Cláudio Fernandes

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

S. PAULO E O ESPÍRITO SANTO


Palavra de Paulo: Gal 5, 16-26



S. Paulo é o grande teólogo do Espírito Santo. Ele fala da sua presença na vida da Igreja em dois espaços: na vida de cada cristão e na vida da comunidade.

1. O Espírito Santo na vida do cristão

O primeiro grande momento da presença do Espírito Santo acontece no Baptismo. O Baptismo é o grande Pentecostes de cada cristão. A partir desse sacramento, o cristão torna-se templo do Espírito Santo. “Não sabeis que o Espírito do Senhor habita em vós e que vós sois templos do Espírito Santo?” Pelo Baptismo, tornamo-nos família da Santíssima Trindade, filhos de Deus e, como no seio de Maria, só o Espírito Santo pode fazer essa filiação.

Por isso, o Espírito Santo não está mais para vir. Ele está radicalmente presente no ponto de partida da vida cristã, mesmo se a tomada de consciência dessa presença só acontece mais tarde quando a criança, tornada adulta, rectificar as exigências do seu baptismo. O Espírito Santo já está nele como uma fonte donde nasce a vida de Deus em nós. O cristão é efectivamente morada da Santíssima Trindade. Por isso, a santidade cristã é-nos dada inicialmente, no dia do nosso Baptismo, como projecto para a nossa vida. Rigorosamente falando nós não nos tornamos santos, mas apenas deixamos que a santidade de Deus nos santifique. Pelo Baptismo, nós recebemos a santidade de Deus em plenitude: tanto no leigo, como no padre, como no bispo ou papa. Todos somos chamados à plenitude da santidade, à perfeição da vida cristã. O que é preciso é desenvolver as suas riquezas latentes. Pelo Baptismo, nós não recebemos o Espírito Santo mais ou menos, a conta gotas. Cristo está todo em cada uma das hóstias consagradas. Uma hóstia não está consagrada mais ou menos. Cristo não está mais numa partícula que noutra. Está todo em cada uma. Mas os efeitos da comunhão não são os mesmos em todos. O Espírito Santo está todo em cada cristão, como Cristo está todo em cada uma da hóstias consagradas.


Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Continua no próximo post)
Foto: Arquivo OMP

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A MISSÃO E A PARTILHA DOS TESOUROS DAS IGREJAS (Conclusão)

2. S. Paulo e a comunhão entre as Igrejas

Paulo fundava comunidades, voltava por vezes um pouco mais tarde para fazer uma visita, escrevia-lhes uma carta, mas não ficava preso àquela comunidade por muito que gostasse dela. Cada comunidade vivia a sua própria história, bastava-se a si mesmo, mesmo financeiramente, desenvolvia-se com os seus próprios meios. Cada comunidade tinha as suas características particulares, os seus aspectos bons e maus. Cada uma devia escutar o Espírito que lhe falava com palavras apropriadas à sua situação (Apoc. 2,7).
Mas não obstante a sua autonomia e as distâncias que separavam estas Igrejas, elas conheciam-se mutuamente e sentiam-se em comunhão umas com as outras.

1. Mandavam-se cumprimentos umas às outras: “Saúdam-vos as igrejas da Ásia” (1 Cor 16, 19); trocavam entre si as cartas de Paulo: “Depois de terdes lido esta carta fazei com que ela seja também lida na igreja de Laodiceia” (Col 4, 16); mostravam-se generosas umas para com a noutras, sobretudo para com a Igreja de Jerusalém. Partilhavam entre si as alegrias e as boas novas da sua actividade missionária. Paulo e Barnabé partirão para a igreja mãe a pedido da comunidade, para dialogar com ela, a propósito dos grandes problemas que surgiram no seu seio, mas também para comunicar as maravilhas que Deus operava entre os pagãos (Actos 15, 15). Era uma das constantes dos apóstolos: após o seu regresso reunir a comunidade para contar as maravilhas operadas por Deus no seio das outras comunidades.

2. As comunidades ajudavam-se mutuamente
A comunidade de Corinto enviará Tito e dois homens de boa reputação escolhidos pela comunidade, à igreja de Roma, não só para a ajudar nas suas necessidades mas também para com eles dar graças a Deus (2 Cor 9, 12).
O próprio Paulo irá pessoalmente como delegado da igreja de Roma a Jerusalém levar a esmola dos romanos para que as tensões entre ele e as comunidades nascidas tanto do paganismo como do judaísmo fossem atenuadas e a comunhão existisse entre as várias comunidades, mau grado a sua diversidade. Ele pede aos Romanos para que rezem afim de que a sua iniciativa fosse bem aceite pelos “santos” (Rom 15, 26-31).
A comunidade de Corinto envia a sua equipa dirigente, Estéfanes, Fortunato e Arcaico ter com Paulo, pois devido às perturbações existentes na comunidade, não sabiam exactamente o que fazer. Paulo envia-lhes Timóteo e escreverá uma carta para restabelecer a calma (1 Cor 4, 17).
À comunidade de Filipos, Paulo enviará dois dos seus colaboradores, Timóteo e Epafrodito.
Aos Colossenses, aos Efésios, a Filémon, é ainda a chegada de um delegado da igreja junto de Paulo, Epafras, que lhe faz escrever a sua carta.
Estas cartas mostram qual o papel de Paulo e seus colaboradores nas relações entre as igrejas locais e os apóstolos. Mesmo não conhecendo pessoalmente os cristãos de Colossos e da Laodiceia (Col 2, 1), ele defende que deve estar em comunhão com eles, para os estimular e encorajar (Col 2, 2), mostrando assim a sua solidariedade com Epafras, que era o responsável da igreja local.
S. Paulo dirá aos Gálatas (Gal 2,2) que se o Evangelho que ele pregava aos gentios não tivesse sido aprovado pela comunidade mãe, ele teria tido a impressão de “correr em vão”. Fora da comunhão, toda a actividade missionária deixava de ter sentido. Sobretudo nas cartas que escreveu durante a sua terceira viagem, ele procura reforçar o sentimento de solidariedade das comunidades que fundava entre pagãos para com a comunidade de Jerusalém que vivia um momento difícil (1 Cor 16, 1-4). A importância de estar em comunhão com a Igreja-Mãe era tão importante, que ele não hesitou em fazer-lhe uma última visita, bem sabendo que arriscava a prisão e a morte. Para ele, a unidade e a comunhão eram um valor tão importante que valia bem a pena morrer para o salvaguardar.

Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Fim do artigo)
Foto: DR

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A MISSÃO E A PARTILHA DOS TESOUROS DAS IGREJAS

Palavra de Paulo: 1ª Cor 16, 5 até ao fim

Uma das constantes da teologia missionária de hoje é a leitura da missão como comunhão de Igrejas. S. Paulo aparecia, nas comunidades que fundara, como o ministro da comunhão, aquele que punha as Igrejas em comunhão umas com as outras: não era de nenhuma Igreja em particular mas pertencia a todas: era um elo de ligação entre todas as comunidades.

1. A comunhão na Igreja das origens

Esta é uma das constantes na Igreja dos Actos do Apóstolos: a preocupação por ligar toda a actividade missionária à comunidade, sobretudo à Igreja mãe de Jerusalém. A comunidade segue o apostolado de Filipe na Samaria e depois o de Pedro na borda do mar. Assim, Pedro e João vão à Samaria, para pôr em comunhão a Igreja que aí nascia pela evangelização de Filipe (Actos 8, 5-14). E é em comunhão que os catecúmenos evangelizados por Filipe recebem o Espírito Santo. Pedro e João impõem as suas mãos aos novos baptizados, para lhes conferir o Espírito Santo (Actos 8, 15-17). Comunidades novas não podem nascer senão em comunhão com a Igreja Mãe. Pedro baptizando Cornélio e a sua família, por um imperativo claro nascido da visão que lhe tira as últimas resistências, sente necessidade de obter a aprovação da comunidade (Actos 11).

Quando é fundada a Igreja de Antioquia, mercê de circunstâncias um pouco fortuitas, de novo a comunidade de Jerusalém se sente interpelada a fazer a comunhão, enviando para isso um homem de confiança, Barnabé. Por outro lado, a comunhão é recíproca, pois que logo que a comunidade de Antioquia teve conhecimento da necessidade em que se encontra a Igreja de Jerusalém, envia para lá socorros (Actos 11, 27-30).

E quando se trata ainda de saber os dados da evangelização a fazer, é em comunidade que o assunto é estudado. A narração de Lucas sobre as deliberações do concílio de Jerusalém deixam supor que houve várias reuniões preparatórias. Uma assembleia plenária faz primeiro surgir um problema levantado em Antioquia (Actos 15, 4-5), em seguida uma reunião restrita de delgados de Antioquia com os dirigentes de Jerusalém: os apóstolos e os anciãos (Actos 15,6); daí sairá o comunicado redigido em nome dos apóstolos e os anciãos de Jerusalém (15,23; 16,4). Enfim uma nova assembleia geral no decurso da qual, “os apóstolos e os anciãos com toda a Igreja, decidiram enviar uma delegação a Antioquia”. Toda a comunidade e não só os dirigentes são chamados a intervir no estatuto que deve regular a comunhão entre as duas Igrejas.


Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Continua no próximo Post)
Foto: DR

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A MISSÃO COMO DIÁLOGO

A Missão da Igreja – e do Cristão, enquanto membro da Igreja e discípulo de Jesus – é o cumprimento do Mandato de Jesus que veio, falou e está entre nós, realizando a Missão que o Pai Lhe deu. Esta é apresentada por Jesus em Lc 4, 18-19 e sintetiza-se no anunciar a Boa Nova como paz, alegria, saúde e libertação.
Jesus, como Filho de Deus e Seu Enviado, tinha (e tem) o “monopólio” da Missão que procurou anunciar e quer continuar a fazê-lo connosco e por nós, fazendo vir fora da pessoa as centelhas dos valores de paz, verdade e bem que lhe estão no coração, desde a criação à imagem e semelhança de Deus.
A partir do Mandato confiado aos Seus amigos (cf Mt 28, 19-20), estes são convidados a anunciá-lo, criando comunhão, na vida e no testemunho, partilhando a sua experiência de escuta e de seguimento com as experiências, também ricas e pessoais de cada pessoa humana, que, com rectidão, procure e ame a verdade e ame e queira o bem.
A Missão do membro da Igreja e do discípulo de Jesus consistirá, sempre, numa proposta de vida, vivida em reciprocidade de consciências que, na escuta e na procura recta e séria da verdade, se abre e motiva ao diálogo, respeitador e amigo, com cada irmão que é, já em si mesmo, uma centelha de verdade e uma presença de Jesus Cristo (cf GS 16).
Nesta Missão, contam mais as pessoas e os factos que as palavras, pois a Fé do conhecimento precisa do teste e da prova do amor e da relação que consiste em viver e cumprir o fundamental da Missão que se torna mesmo o distintivo da pertença (cf Jo 13, 34-35).
Anunciar o Evangelho e ser Missionário no cumprimento da Missão de Jesus Cristo não é colocar-se do lado da verdade frente ao lado das pessoas; será sim e sempre sintonizar-se na comunhão com as pessoas, colocando-se na escuta e no seguimento da Pessoa que é Caminho, Verdade e Vida. Este espírito conduz ao diálogo, na comunhão para a escuta e nunca é cedência nem fraqueza; é, sim, respeito pela Pessoa, pela Verdade e pela Missão que vem do Pai. Ele comunica o conteúdo desta Missão (paz, alegria, saúde e libertação) a todos os Seus filhos, ao modo da cultura e das circunstâncias em que cada um está e vive, e somente o Evangelho é capaz de colocar em condições de acolhimento da Missão as realidades que O não conhecem.
Este momento é inculturação, quando, sem destruição da cultura e das realidades pessoais em que cada um vive, uma e outras são enriquecidas pelo conteúdo da Missão e se abrem aos valores que são ‘mais valia’ na realização concreta, enquanto acrescentam paz, alegria, saúde e libertação aos valores naturais que conhecem e promovem. Esta interculturalidade beneficia, sem dúvida, os cristãos missionários e os destinatários da Missão, pois uns e outros partilham, dialogam e aprendem, reciprocamente, os muitos valores que existem nuns e noutros, numas e noutras culturas, recebendo, de uma forma inculturada e à maneira de pessoa livre e amada por Deus, as graças da Missão.
Por isso, somente pode ser Missionário ou agente da Missão do Evangelho quem sabe amar, quem sabe escutar e quem sabe partilhar, em comunhão, o tesouro que cada um é e tem, recebido no dom da vida e que é chamado a viver e a fazer crescer em procura constante da Pessoa que é Fonte de Verdade, de Caminho e de Vida para toda a humanidade.


D. Ilídio Leandro
Bispo de Viseu

quinta-feira, 31 de julho de 2008

A ORAÇÃO NA FONTE DA MISSÃO

3. As chaves de leitura da oração em Paulo


1. A oração ocupa um lugar central na missão de Paulo. “Rogo-vos, irmãos, por Nosso senhor Jesus Cristo e pela caridade do Espírito Santo, que me ajudeis com as orações que dirigis a Deus por mim, para que me livre dos incrédulos que há na Judeia e para que o auxílio que levo a Jerusalém tenha boa aceitação da parte dos santos” (Rom 15,30).

2. A oração é a marca da comunidade de fé que Paulo queria fundar. “Não vos inquieteis com coisa alguma, mas em todas as circunstâncias apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com muitas orações e preces e com acção de graças. A paz de Deus que ultrapassa todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Jesus Cristo” (Fil 4, 6-7).Desde a sua primeira carta, Paulo tinha proposto a oração como a maneira de ser da comunidade cristã. “Orai sem cessar; e em todas as circunstâncias dai graças, pois é a vontade de Deus, em Cristo Jesus, a vosso respeito” (1 Tes 5,17-18).

3. A oração situa-se no coração da sua vida apostólica. Uma leitura das cartas de Paulo leva-nos a uma primeira constatação: a oração de Paulo é alimentada exclusivamente pela sua actividade apostólica, pelas notícias que recebe das comunidades e os seus projectos apostólicos. Paulo reza a partir do que vive, das suas consolações, das suas tribulações e das suas amizades. Por isso a sua oração está cheia dos problemas que ele vive, das alegrias que marcam o seu apostolado, das esperanças e dos sonhos que tem a respeito das suas comunidades. “Noite e dia dirigimos a Deus as mais instantes súplicas para que possamos ver o vosso rosto e reparar as dificuldades da vossa fé” (1 Tes). As cartas sublinham o intenso compromisso que a oração implica.

4. A oração é partilhada. Paulo partilha a sua oração. Convida os seus leitores à oração e à acção de graças para que também eles descubram a vontade de Deus, especialmente nas assembleias onde o Espírito se manifesta. “Orai sempre. Em tudo dai graças. Esta é a vontade de Deus a vosso respeito” (1 Tes 5,18). S. Paulo não se sente sozinho nas suas relações com Deus. Ele reza com toda a comunidade.

5. Uma oração dirigida ao Pai. Em S. Paulo, todas as fórmulas de oração dirigem-se sempre ao Pai, não a Cristo. “Damos graças a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, nas orações” (Col 1,3). Ou então: “Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo…” (2 Cor 1,3). Isto traduz a profundidade da oração de Paulo.

6. Uma oração enraizada na tradição. A oração de S. Paulo está em sintonia com a oração bíblica. Não é uma oração devocional mas enraizada na mais pura tradição da oração do povo de Deus. Privilegia a acção de graças, o louvor, a súplica, os hinos. As bênçãos e todas as constantes dos grandes orantes do Antigo Testamento. Algumas das suas intervenções orantes são autênticos salmos.

7. A oração no Espírito. A oração para Paulo é a voz do Espírito Santo em nós. “O Espírito ora em nós com gemidos inexprimíveis e faz-nos clamar Abba, ó Pai” (Rom 8, 15).
O Espírito intercede por nós e está no coração da nossa oração. Ele conhece as profundezas de Deus e dá-nos a possibilidade de penetrar nos mistérios da sabedoria de Deus. A oração leva-nos ao coração da Trindade. “De maneira semelhante é que o Espírito vem em ajuda da nossa fraqueza, pois não sabemos o que havemos de pedir nas nossas orações mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rom 8, 26).



Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Fim do Post)
Foto: João Cláudio Fernandes