segunda-feira, 16 de março de 2009

IRMÃ TASSY FRANCISCO: DE MOÇAMBIQUE A PORTUGAL - Conclusão

Por Roma a Portugal

A saída de Moçambique para Roma aconteceria só em 1986, com dois objectivos claros: fazer um curso de Missiologia e Catequese na Universidade Urbaniana e, depois, entrar na Congregação das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres. Roma foi espaço de abertura de horizontes: “Este tempo em Roma foi gratificante para mim, não tanto pela formação, mas pelo contacto com uma Igreja diferente, pelo contacto com o mundo, culturas diferentes, experiências diversas, enfim… era tudo tão diferente!”.

Roma abriu as portas de Portugal para a Tassy. Foi cá que entrou na Congregação, em 1989, professando em 1992. Depois, percorreu diversas comunidades, de norte a sul do país. Mudava a geografia e o trabalho, mas a Missão era a mesma.

Sente-se feliz e missionária em Portugal. 

Os riscos da Missão aqui

E lança um alerta à Igreja em Portugal: “Cá, temos que lutar contra os extremos: antes, apresentava-se a missão como o ir para lá e, agora, o discurso acentua demasiado a missão cá dentro. É verdade que a Missão é cá e lá, e podemos participar da Missão de muitas formas, mas o “PARTIR” será sempre resposta ao envio que Jesus faz e a Igreja espera a disponibilidade de alguns para ir aonde ela ainda não é conhecida”.

Gosta de percorrer as comunidades cristãs de Portugal para falar da Missão e tem um fascínio especial pelos jovens, com quem partilha grandes momentos de Evangelização.

Sempre a sorrir...

O seu país continua, é claro, no coração. A Irmã Tassy está feliz pelo caminho que percorreu nos 16 anos de paz. Acha que a Igreja está ali a amadurecer, a cimentar-se. Continua a precisar do apoio de Missionários e de algum apoio a projectos de desenvolvimento e solidariedade.

É Vigária-Geral, em Lisboa, e vai ficar em Portugal enquanto for útil e necessário. Mas o fascinante na vida da Irmã Tassy é o seu permanente sorriso, bem rasgado e bem africano, a mostrar uma alegria que contagia. E a Missão precisa destes rostos e destes sorrisos.

Texto: Tony Neves in Jornal Voz da Verdade - Perfil

Foto: DR

sexta-feira, 13 de março de 2009

IRMÃ TASSY FRANCISCO: DE MOÇAMBIQUE A PORTUGAL


Cresceu a ouvir falar em viagens de sentido contrário: os Missionários iam daqui para lá. Ela acabou por inverter a direcção do leme e veio de Moçambique para Portugal. É cá, a partir de Lisboa, que exerce hoje a sua Missão, como Irmã Concepcionista ao Serviço dos Pobres.

Nasceu em Lourenço Marques em 1960. Dos nove irmãos, foi a única que quis ser ‘Irmã’, estando a estudar com as Irmãs Vitorianas.

Cresceu, como jovem, nos tempos quentes da revolução de Abril que deu abertura à independência de Moçambique e fez abalar a Igreja: “Foi um tempo difícil de dúvida, de desconfiança e de perguntas que ninguém sabia responder-me. Graças a Deus, nunca me afastei da Igreja e fazia parte do pequeno número que estava presente, que interrogava a Igreja sobre a resposta a dar aos ataques constantes à nossa fé e à nossa Igreja”. 

O surgir de uma Vocação

Empenhada na pastoral da Igreja, no Maputo, não percebia porque é que “os missionários regressavam a Portugal, porque é que as Igrejas eram encerradas, porque, porque...”.

E foi nesta caminhada de busca de respostas que a jovem Tassy descobriu a Vocação à Vida Consagrada. Confessa: “a minha vocação surge como que um ‘clic’: o Senhor Cardeal, então arcebispo de Maputo, numa Eucaristia de crismas na minha paróquia, desafiou os jovens a uma vivência da fé mais comprometida com a Igreja, activos e empenhados nos vários ministérios da comunidade cristã”. E algo parecia clarificar-se nela: queria servir mais e melhor a Igreja.

Tempo de guerra civil

Era tempo de conflito entre a Frelimo e a Renamo e ela conheceu as dificuldades da guerra, em experiências missionárias no interior de Moçambique. Aprendeu a admirar os missionários, a ficar do lado deles, pois estavam a sofrer com as vítimas da violência e da pobreza.

Texto: Tony Neves - in Jornal Voz da Verdade / Perfil - 1Mar09

Foto: João Cláudio Fernandes 

quarta-feira, 11 de março de 2009

MAIS IMPORTANTE 'ESTAR' DO QUE 'FAZER' - Conclusão

‘Estar’ é mais importante que ‘fazer’!

Trabalhou muito e bem, como o dizem os Espiritanos e Espiritanas com quem partilhou o dia a dia complicado de uma Missão pobre. Trabalhou muito na Escola e com os jovens, numa área com 77 comunidades, onde o ensino está de rastos, apesar da paz já ter chegado a Moçambique há alguns anos.

É modesta, mas profunda, na avaliação que apresenta: ‘Não foi tanto com o fazer que cresci, mas sim com o estar. Por isso, fiz muita coisa, mas sobretudo estive:


Estive no meio de um povo, o povo macua, que do nada faz tudo, com uma generosidade imensa e com um sorriso constante no rosto. Estive no meio de um povo onde os batuques ditam o ritmo e genuidade de cada um impera. Estive no meio de um povo que me ensinou a voltar a ser criança, a me espantar com tudo o que me rodeia. Estive no meio de um povo que me ensinou a olhar o mundo com outros olhos.

Estive na no meio de um equipa missionária que me acolheu com um espontaneidade e uma alegria indescritíveis. Estive no meio de uma equipa missionária que me ensinou outra forma de encontrar Deus. Estive no meio de uma equipa missionária que me ensinou a viver em comunidade e a lidar com as diferenças de cada um.

Estive onde sinto que Deus me quis. E espero continuar agora a seguir o Seu caminho, certa de que este ano que passei me fará andar mais forte e com mais confiança’.

Na hora do regresso

É difícil apagar as pegadas de um ano de intensa missão no norte abandonado de Moçambique. Continua, dois meses após o regresso, a sonhar com este povo que nunca mais poderá abandonar. Vem com a cabeça cheia de projectos, alguns dos quais (por exemplo, a construção de um Internato que acolha meninas e lhes possibilite estudar) vão mesmo avançar.

Chegou, teve dificuldades a adaptar-se, novamente, aos ritmos e costumes ocidentais, e começou a roda-viva de entrevistas e envio de curricula para voltar ao mercado de trabalho. Missão quase impossível...mas só ‘quase’. Porque, a 4ª feira de cinzas permitiu-lhe virar uma nova página, sendo o primeiro dia do resto da vida laboral desta jovem Engenheira do Ambiente. Está já a trabalhar e muito feliz, na área académica da sua predilecção.

E a Missão está-lhe no sangue...Por isso, não vai parar de anunciar o Evangelho. Vai continuar a ‘partir’.

Texto: Tony Neves - In Jornal Voz da Verdade - Perfil - 8 Março'09

Foto: DR

segunda-feira, 9 de março de 2009

MAIS IMPORTANTE “ESTAR” DO QUE “FAZER”


Joana Pedro, Leiga Missionária em Moçambique

O Monte Abraão – Sintra foi o berço onde a sua fé foi crescendo. Depois da catequese, a sua entrada no mundo dos jovens passou por dois caminhos: os Jovens Sem Fronteiras e os Escuteiros. Não vale a pena perguntar qual o mais importante e decisivo, porque ela não consegue responder. Mas foi crescendo na sua capacidade de dar-se.

Ponte’ nas periferias do Rio

E percebeu que, como escreveu D. Hélder Câmara, a Missão é sempre partir. E preparou-se para se fazer ao largo... Primeiro, com os JSF, fez uma ‘Ponte’, experiência missionária que, ano após ano, coloca uma dúzia de jovens a ligar duas margens. No caso dela, em 2005, tornou mais estreito o mar que nos separa do Brasil. A experiência de Missão nas favelas de Cabo Frio, periferia do Rio de Janeiro, marcou-a para sempre. Ali, do outro lado do Atlântico, os contrastes são mais gritantes e as injustiças são de bradar aos céus, pois os ricos são muito ricos e os pobres... miseráveis.

Um ano em Moçambique

A experiência foi muito densa, mas soube-lhe a pouco e preparou-se logo para partir por mais tempo. Terminou o Curso de Engenharia do Ambiente, arranjou um excelente emprego que...deixou para rumar ao norte de Moçambique onde esteve todo o ano de 2008. Uma loucura, em tempo tão difícil de se entrar no mercado de trabalho. Mas queria partir e ninguém a conseguiu impedir de dar este salto. Conta como foi: ‘O ano de 2008 foi, para mim, um ano bastante diferente, passado num outro mundo, um mundo geograficamente longe, mas ainda mais longe em tudo o resto. A 12 de Janeiro de 2008 cheguei à Missão Espiritana de Itoculo, onde durante um ano vivi, cantei, sorri, chorei, partilhei e cresci’.

(Continua no próximo post)

Texto: Tony Neves - In Jornal Voz da Verdade - Perfil - 8 Março'09

Foto: DR

sexta-feira, 6 de março de 2009

PADRE EM LEIRIA, MISSIONÁRIO EM SUMBE - Conclusão

Durante a minha juventude houve grandes fomes em Àfrica, especialmente na Etiópia. Não podia ficar indiferente àquelas imagens da tragédia humanitária de ver tanta gente a morrer à fome e com doenças.

Num primeiro momento, fiquei entusiasmado com a iniciativa dos cantores famosos que deram voz a várias canções cujos lucros da venda dos discos foi a favor dessas situações. Mas depois tomei consciência de que eles não síam do seu bem-estar para ajudar quem mais precisava.  A partir do contacto com o Evangelho fui percebendo que mais importante que dar algo é dar-se. Foi isso que Jesus fez ao incarnar.

À medida que a idade e os meus estudos de Teologia avançavam, ia sendo cada vez mais forte em mim  o desejo de partir, de dar algum tempo da minha vida à Missão em países mais pobres, especialmente em Àfrica. A História, de que gostava muito,  ensinava-me que aquela evangelização e encontro de culturas, de que se falava muito, tinha sido escrita com lindas páginas, mas também com algumas muito tristes e injustas. Como cristão e europeu sentia alguma responsabilidade nos darmas que Àfrica vivia.

Entretanto, soube que, como padre diocesano, podia partir como padre fidei donum para outro país. Também a leitura de algumas biografias de santos, o desejo de fazer uma experiência de fé mais existencial, o diálogo com algumas pessoas amigas e um forte apelo interior fizeram-me manifeestar ao meu bispo a disponibilidade para dar algum tempo da minha vida à Missão.

Já perto da minha ordenação sacerdotal, vivi uma grande proximidade entre a opção vocacional ea de ir em missão para longe,  porque ao partir sentia mais forte e verdadeira a minha radical decisão de entregar a minha vida a Deus pelo serviço dos irmão.

Parti para a diocese do Sumbe, em Angola, ainda durante o meu primeiro ano de padre e por lá estive durante três anos e meio, tendo vivido uma experiência que foi ao mesmo tempo exigente e gratificante. De tal modo que ainda hoje continuo ligado à Missão.

In Edição especial Agência Ecclesia – Em Missão, Out '08

Texto: P. Vítor Mira

Foto: DR

quarta-feira, 4 de março de 2009

PADRE EM LEIRIA, MISSIONÁRIO EM SUMBE


Olhado para a linha da minha vida, recordo que a primeira “semente missionária”caiu no meu coração quando tinha cinco anos. Os missionários foram à minha aldeia. Não me lembro de nada do que disseram nem quantos eram, mas recordo a figura simpática de um missionário barbudo, uma brincadeira que ele fez connosco e algumas imagens de um filme que ele mostrou (crio que era o “Herói de Molokai”)

Aos 12 anos,  ainda no ciclo preparatório, um professor falou-nos de S. Francisco de Assis e contou a história do lobo que atormentava uma povoação, tendo sido o santo, um homem de paz e bem, que conseguiu “domar” a terrível fera.

Aos 13 anos entrei para o seminário diocesano de Leiria devido também por influência do meu professor de Religião e Moral e do meu pároco. Já no seminário, lembro-me que gostava muito de ler a Audácia, de modo particular as bandas desenhadas em que via as actividades dos missionários. A determinada altura andava eu próprio também a fazer as minhas bandas desenhadas com histórias que eu inventava inspirado pelas que lia. Depois as notas começaram a baixar e convenceram-me que era melhor deixar aquela “paixão”.

O bichinho ficou adormecido mas não morto. Quando terminei o 12º ano no seminário diocesano ainda coloquei a hipotese de mudar para um instituto missionário, desejo que partilhei com as pessoas mais próximas. Mas tanto os meus formadores como a minha família não acharam a ideia muito interessante...

(Continua no próximo post...)

In Edição especial Agência Ecclesia – Em Missão, Out '08

Texto: P. Vítor Mira

Foto: João Cláudio Fernandes

segunda-feira, 2 de março de 2009

EXPERIÊNCIA MISSIONÁRIA NA GUINÉ - Conclusão

Se o Partir de Portugal não foi uma canção de embalar  e se o chegar e ficar na Guiné não foi fácil, o regressar a Portugal foi ainda mais difícil.

Vim, mas deixei-me lá.

Vim, mas trouxe as tatuagens de sofrimento daquela gente.

O adeus que disse à Guiné foi embrulhado num vendaval de emoções e foi escrito com letras dolorosas que me deixaram os olhos marejados de saudade.

Soltei amarras e deixei a Guiné, mas trouxe comigo, como que assolapada, a vontade de um dia lá voltar. E isso aconteceu! Em Janeiro de 2008 parti do Porto, num jipe, e atravessei Portugal, o estreito de Gibraltar, Marrocos, Saara Ocidental, Mauritânia, Senegal, Gâmbia até chegar à Guiné. AS dificuldades da viagem tão longa e tão difícil foram esquecidas pela infinita alegria de rever tantos rostos já conhecidos e sempre amáveis e tranquilos, apesar de maquilhados de tanto sofrimento, e de poder deixar às Missionárias Espiritanas o Jipe que foi comprado com o dinheiro do livro “Sinfonia das Palavras” que escrevi durante o ano em que permaneci na Guiné.

Emfim, a experiência missionária de um ano na Guiné e a viagem de Jipe, que dorou treze longos dias, não me tornaram nem melhor nem pior, mas fizeram-me ficar diferente e constituíram o tempo mais fantástico e a experiência mais extraordinária da minha vida de homem e de padre. Agradeço a Cristo, o Missionário do Pai, por me ter concedido dom tão inolvidável.

In Edição especial Agência Ecclesia – Em Missão, Out '08

Texto: P. Almiro Mendes

Foto: DR