segunda-feira, 30 de março de 2009

ARSÉNIO ISIDORO, UM PADRE ENTRE A RAMADA E O PRÍNCIPE - Conclusão

Aqui e lá fora

A paróquia da Ramada tem um duplo dinamismo: o pastoral, com muita gente a participar nas celebrações, 900 crianças na catequese, cerca de 200 jovens e muitas pessoas envolvidas em Movimentos; mas há uma aposta clara no dinamismo social e solidário, com o centro comunitário que tem 17 valências, 83 funcionários e 608 utentes por dia. Mesmo ‘cá dentro’, a paróquia reza, celebra, forma, mas já está muito voltada para fora, com os serviços sociais que presta e com as parcerias que vai estabelecendo: “Nunca trabalhamos sós”. E esta experiência de parceria passou para o Projecto de Geminação. Nota-se, no Príncipe, a vertente evangelizadora: fundaram-se os Escuteiros e estabeleceram-se ligações fortes entre as Conferências Vicentinas e a Legião de Maria de ambas as Paróquias. Na vertente social e solidária, construiu-se a Casa Betânia (Lar de Idosos), em 2004, lançaram-se os apadrinhamentos, criou-se um projecto de apoio directo a famílias pobres e inaugurou-se o Colégio de Santa Teresinha (Creche, Jardim Infantil e ATL), em 2008.


A organização foi-se refinando: fundou-se, há três anos, o Movimento Missionário, mais ligado à animação paroquial (cá e no Príncipe). A dimensão técnica desta Geminação foi aperfeiçoada com a fundação, em 2008, da “Ligar à Vida”, uma ONGD que coordena a parte material e dos recursos humanos dos Projectos.

Convicções

Algumas convicções já lhe estão na alma: é mais fácil construir do que manter uma obra; quando damos, ficamos mais ricos; quando as pessoas se empenham e partilham, a comunidade cresce e amadurece; com parcerias tudo é mais fácil de concretizar; os leigos são decisivos para o sucesso das Missões; há que pôr talentos a render... Esta geminação gerou na Ramada a consciência de que com muito pouco se pode fazer muito, contrariando a experiência europeia de que, com muito, se faz tão pouco!

Esta geminação permite a experiência do desapego e da partilha, ajudando a viver a Eucaristia como vida entregue. 

O futuro...temos que o construir

Vamos continuar este sonho: a paróquia da Ramada vai crescer e o projectos do “Ligar à Vida” também: queremos construir uma Creche na Roça da Nova Estrela e um Centro de Acolhimento a Órfãos na Cidade de Santo António. Devemos, pois, pensar em algo que garanta alguma sustentabilidade financeira, uma vez que estamos a gastar cerca de mil euros por mês no Príncipe. Valem-nos muito os numerosos parceiros nesta aventura a que já conseguimos associar a Câmara Municipal de Odivelas.

Texto: Pe. Tony Neves , in Jornal da Verdade – Perfil.

Foto: João Cláudio Fernandes

sexta-feira, 27 de março de 2009

ARSÉNIO ISIDORO, UM PADRE ENTRE A RAMADA E O PRÍNCIPE


Eu não exigi este projecto; ele é que tem exigido de mim!“, confessa o padre Arsénio, pároco da Ramada – Odivelas, que mantém muita viva uma Geminação com a Ilha da Príncipe.

O padre Daniel Batalha, com o seu coração balanceado para a Missão lá fora, construiu esta geminação e o padre Arsénio, em 2005, limitou-se a apanhar o comboio em andamento. Este – recorda – trazia experiências missionárias dos tempos de seminarista, com missões realizadas em Alcoutim e no Nordeste brasileiro. O seu trabalho com as Equipas de Jovens de Nossa Senhora e as Equipas d’África também deram sensibilidade à Missão. 

Sair para quê?

Mas, na Ramada, o primeiro impacto foi de susto: “Ir para África fazer o quê, se há tanto que fazer aqui?”. Após esta luta interna inicial, o novo pároco começou a dar mais de si e tornou-se um apaixonado pela paróquia-irmã de Nossa Senhora da Conceição da Ilha do Príncipe. Duas vezes por ano, lá vai até África acompanhar a evolução do “Projecto Pague” (assim se chama), pois há pessoal contratado, um ritmo de construção de um edifício por ano que exige que se acompanhem as obras e se controle o conjunto do projecto.

Esta ‘Missão lá fora’ partiu do dinamismo missionário criado ‘cá dentro’. E a comunidade partiu. Já lá vão sete anos de intensa relação, com muitas ‘Missões’ de leigos, jovens e menos jovens, que vão dando o que têm por aquela população pobre do Príncipe. Mas vão ganhando muito, no plano humano, com a simpatia e a capacidade de sofrer e resistir deste povo tão abandonado. Alguns jovens partiram apenas por um mês ou dois. Agora, a aposta já vai mais longe, com missões de um ou dois anos (estão actualmente dois no Príncipe), pondo a render os talentos e a formação profissional que têm. E muitas das acções de formação são dadas pelos técnicos do Centro Comunitário.

(Continua no próximo Post)

Texto: Pe. Tony Neves , in Jornal da Verdade – Perfil.

Foto: DR

quarta-feira, 25 de março de 2009

APOIAR A VIDA DOS IMIGRANTES - Conclusão

Na Austrália, com Psicologia

1999 obriga a mais uma mudança continental: faz Votos Perpétuos e é nomeada para a ...Austrália, obrigando a uma nova abertura cultural e linguística: depois do Português e do Espanhol...vai até Inglaterra para estudar Inglês, em 10 meses. Depois, faz as malas e parte para o país que Bento XVI escolheu para se encontrar com os jovens nas últimas Jornadas Mundiais de Juventude. Foi no ano 2000 que aterrou, em pleno jubileu, nesta terra onde há imigrantes de cerca de 200 países. A Austrália era um país estranho que ‘acolhia de forma extraordinária alguns refugiados, mas detinha, de forma desumana, os imigrantes ditos irregulares’. A Igreja e as ONGs denunciaram muitas vezes esta situação, mas sem grande sucesso.

Estudou Psicologia pois sempre achou importante, para a sua Missão, conciliar a Espiritualidade e a Psicologia: ‘Estou convencida que uma dos momentos de maior sofrimento é quando a pessoa perde o sentido da vida’. É preciso ajudar as pessoas a encontrá-lo e o apoio psicológico pode dar um contributo decisivo nesta busca.

Com os Imigrantes, em Lisboa

Em 2006 regressou a Portugal, integrando a comunidade da Servas do Espírito Santo que vivem em Odivelas. São 3, de outros tantos continentes: uma portuguesa, uma timorense e uma angolana. Porque querem anunciar o Evangelho aos pobres, apoiam grupos de catequese, desenvolvem Animação Missionária com os Institutos Missionários Ad Gentes e acompanham a pastoral dos imigrantes. Outras Irmãs vivem em Casal de Cambra, num bairro de realojamento, por opção de Congregação.

Licenciada em Psicologia Clínica, com especialização em psicologia transcultural, a Irmã Maria José trabalha no Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) desde Fevereiro de 2007. Conheceu esta organização na Austrália e agradou-lhe o seu carisma: ‘tem uma presença muito activa na defesa dos direitos dos imigrantes e refugiados detidos pelo governo australiano’.

Cá em Lisboa, dá apoio psicológico a imigrantes e coordena a Área de Saúde Imigrante do JRS. Tem encontrado uma forte ligação entre os problemas de foro psicológico e a sua situação social e legal: ‘percebo melhor a situação de grande vulnerabilidade social em que muitos imigrantes se encontram e quanto esta situação os expõe à exploração dos empregadores e arrendatários’. A insegurança, a irregularidade, o trabalho precário, o acesso limitado à saúde...são situações que levam imigrantes a procurar apoio psicológico. Há estatísticas que doem: ‘Nos imigrantes que acompanhei, os problemas mais comuns foram os sintomas de ansiedade (25%), sintomas depressivos (22%), isolamento e solidão (21%), luto e perda de esperança (11%), ideia de suicídio (9%).

A intervenção pastoral e social obriga a Espiritualidade e a Psicologia a passear-se, de braço dado, nos caminhos da vida dos imigrantes. Em nome de Deus, claro!

 Texto: Pe. Tony Neves – Jornal Voz Verdade(w) – Perfil

Foto: DR

segunda-feira, 23 de março de 2009

APOIAR A VIDA DOS IMIGRANTES


Maria José Rebelo nasceu na Benedita (Alcobaça) há 42 anos. Aos dez anos, passou o missionário que mostrou um filme sobre África e ela nunca mais descansou enquanto não partiu para terras distantes.

Estudou Filosofia na Universidade Católica, em Lisboa e, porque os irmãos foram seminaristas do Verbo Divino, quis saber se havia um ramo feminino. E há, mas não havia em Portugal: por isso, a Maria José entrou, em 1988, no postulantado das Irmãs Servas do Espírito Santo (SSpS), em Valladolid. 

Com os pobres, no Brasil

Cresceu na vocação e na abertura á missão universal. Deu um salto atlântico e foi parar ao Brasil para continuar o caminho da vida consagrada: ali faria o Noviciado e algum tempo de Juniorado, fases que antecedem uma consagração definitiva. Diz ela: ‘Esta entrada em diferentes culturas foi exigindo de mim um descobrir novos horizontes e abrir-me a novas realidades’. Nestes seis anos de Brasil, aprendeu a ler as Bíblia a partir da perspectiva dos mais pobres, obrigando-a a um compromisso forte na área da ‘justiça e paz’ como pede a Igreja.

Continua no próximo post...


Texto: Pe. Tony Neves – Jornal Voz Verdade(w) – Perfil

Foto: DR

sexta-feira, 20 de março de 2009

CABO VERDE NO MEU CAMINHO - Conclusão


As actividades em que participei estendem-se por todos os âmbitos da acção da igreja, ma com particular realce na formação dos agentes da pastoral, nomeadamente dos ministros extraordinários da comunhão, o apoio aos vários movimentos existentes da comunidade, leccionando na Escola Secundária Paroquial, colaboração na formação de um grupo de 6 juniores da Congregação das Filhas do Coração de Maria que têm uma casa de formação na nossa paróquia, e do Divino Espírito Santo para a Evangelização (3 d Guiné e 3 de Cabo Verde).

Na seman santa e Páscoa, houve ainda a oportunidade de colaborar na Diocese vizinha do Mindelo, na ilha de Santo Antão, particularmente nas paróquias do Paúl, Ribeira Grande e Santo Crucifixo (Cuculi), contactando com a realidade de uma diocese nascente (há 3 anos) e com o seu primeiro Bispo D. Arlindo. Pela orientação do retiro na semana santa, participei na formação dos seminaristas do seu seminário nascente, que são 3  com o 12º ano e que vivem também na comunidade sacerdotal de Ribeira Grande com o Pe. Ima e o Pe. José Mário.

Nestas terras de Cabo Verde, pude diversificar as minhas aprendizagens, pelo  contacto com uma realidade nova, com a problemática do relacionamento dos missionários com uma jovem igreja local “autónoma” emergente, as questões culturais, históricas e linguísticas, sociais e económicas e mesmo políticas (pude acompanhar as suas eleições autárquicas) de um país que, cmbora considerado de desenvolvimento médio, sofre de seca, a fome e a desigualdade de oportunidades, enfim desafios à Igreja que vive em Cabo Verde.

Estes desafios são convite à igreja que vejo, por vezes, demasiado voltada para si mesma. A missão do padre ou do leigo não é servir a Igreja, mas sim, em Igreja, servir o desígnio de Deus que quer que “todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (ad gentes, 7), é necessário partir ao encontro do outro, do mais afastado, do pobre, e, no amor, toda a igreja se torne mais missionária. Corremos o risco de ser uma igreja de funcionários, nem sempre competentes, que prestam serviços internos, que executam os ritos litúrgicos, que fazem festas sonantes, mas são insensíveis à vontade do Mestre: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15). Cada comunidade paroquial tem de recuperar o seu dinamismo missionário para abafar sob o peso de ideias atávicas e mesquinhas, de tricas de gente ociosa, insossa e inconsistente. È mais fácil e confortável a rotina de que se limita a esperar que venham ao seu encontro, mas é urgente partir!

Vale a pena aproveitar a graça que será o Sínodo dos Bispos sobre a Palavra e olhar para S. Paulo como o grande missionário, aproveitando, deste modo, a proposta do Papa para que a Igreja toda redescubra um novo ardor evangelizador e missionário.

Dou graças a Deus por mais esta oportunidade de servir o Senhor e por todas as pessoas , sacerdotes, religiosos e religiosas e leigos que Deus colocou no meu caminho, por estas terras de Cabo Verde. Vai marcar, com certeza, a segunda metade da minha vida que agora começa...

Si Nhor Dés ta tchomabu...labanta bu bai...Nhor Dés alen li,  nhu mandan pa undi Nhu crê!

Texto: Pe. António Felisberto in Em Missão – Ed. Especial Agência Eclesia, Out ‘ 08

Foto: DR

quarta-feira, 18 de março de 2009

CABO VERDE NO MEU CAMINHO


Em boa hora pensei dedicar este último ano da minha vida a um trabalho missionário, na missão ad gentes, para renovação do meu ministério com uma nova actividade enriquecidora da minha vida cristã. Contactei os Missionários Espiritanos, através do Pe. Tony Neves, e foi-me feita a proposta de Cabo Verde, lá estive, numa comunidade com mais dois sacerdotes Espiritanos, na paróquia da Calheta de S. Miguel, na Ilha de Santiago, de Outubro de 2007 a Julho de 2008.

Fui recebido não como um estralho, mas como um irmão, tanto pela comunidade Espiritana, em Cabo Verde, começando pelo responsável do distrito, o Pe. João Baptista, com  todos os padres Espiritanos, com particular destaque para o Pe. Nuno Rodrigues, pároco da Calheta que me recebeu em sua casa, juntamente com o jovem Pe. Alfredo Inácio entretanto chegado de Angola em primeira afectação, como também pela igreja local, com o seu bispo, D. Paulino, todo o clero diocesano e particularmente por todos os fiéis da paróquia de S. Miguel.

Na Calheta de S. Miguel, encontrei uma paróquia grande, em expansão e população (cerca de 20 000 pessoas), com uma camada jovem muito significativa (80%), uma comunidade viva, que vive a sua fé num meio específico de Cabo Verde. Uma igreja jovem, com cerca de 500 anos de vida, que procura a fidelidade a Jesus Cristo, numa cultura que nem sempre caminhou à luz do Evangelho, mas sempre com a presença de muitos elementos cristãos. Uma igreja que, na Calheta de S. Miguel, vive a luta do dia-á-dia com muita gente empenhada na comunidade paroquial, desde os responsáveis de comunidade, aos ministros extraordinários da comunhão (68), à legião de Maria, aos escuteiros e demais grupos jovens, apostolado de oração, grupos de acção litúrgica e caritativos, a escola Pe. Moniz, uma comunidade que sonha e se empenha por um Cabo Verde e um mundo melhor. Uma comunidade que, com o seu pároco, Pe. Nuno e o Pe. Alfredo, me acolheu como mais um membro, um cristão, um padre, que vinha para partilhar as suas alegrias e sofrimentos, testemunhando e celebrando a mesma fé em Jesus Cristo, morto e ressuscitado.

(Continua no próximo Post)

 

Texto: Pe. António Felisberto in Em Missão – Ed. Especial Agência Eclesia, Out ‘ 08

Foto: DR

segunda-feira, 16 de março de 2009

IRMÃ TASSY FRANCISCO: DE MOÇAMBIQUE A PORTUGAL - Conclusão

Por Roma a Portugal

A saída de Moçambique para Roma aconteceria só em 1986, com dois objectivos claros: fazer um curso de Missiologia e Catequese na Universidade Urbaniana e, depois, entrar na Congregação das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres. Roma foi espaço de abertura de horizontes: “Este tempo em Roma foi gratificante para mim, não tanto pela formação, mas pelo contacto com uma Igreja diferente, pelo contacto com o mundo, culturas diferentes, experiências diversas, enfim… era tudo tão diferente!”.

Roma abriu as portas de Portugal para a Tassy. Foi cá que entrou na Congregação, em 1989, professando em 1992. Depois, percorreu diversas comunidades, de norte a sul do país. Mudava a geografia e o trabalho, mas a Missão era a mesma.

Sente-se feliz e missionária em Portugal. 

Os riscos da Missão aqui

E lança um alerta à Igreja em Portugal: “Cá, temos que lutar contra os extremos: antes, apresentava-se a missão como o ir para lá e, agora, o discurso acentua demasiado a missão cá dentro. É verdade que a Missão é cá e lá, e podemos participar da Missão de muitas formas, mas o “PARTIR” será sempre resposta ao envio que Jesus faz e a Igreja espera a disponibilidade de alguns para ir aonde ela ainda não é conhecida”.

Gosta de percorrer as comunidades cristãs de Portugal para falar da Missão e tem um fascínio especial pelos jovens, com quem partilha grandes momentos de Evangelização.

Sempre a sorrir...

O seu país continua, é claro, no coração. A Irmã Tassy está feliz pelo caminho que percorreu nos 16 anos de paz. Acha que a Igreja está ali a amadurecer, a cimentar-se. Continua a precisar do apoio de Missionários e de algum apoio a projectos de desenvolvimento e solidariedade.

É Vigária-Geral, em Lisboa, e vai ficar em Portugal enquanto for útil e necessário. Mas o fascinante na vida da Irmã Tassy é o seu permanente sorriso, bem rasgado e bem africano, a mostrar uma alegria que contagia. E a Missão precisa destes rostos e destes sorrisos.

Texto: Tony Neves in Jornal Voz da Verdade - Perfil

Foto: DR