quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A MISSÃO E A PARTILHA DOS TESOUROS DAS IGREJAS (Conclusão)

2. S. Paulo e a comunhão entre as Igrejas

Paulo fundava comunidades, voltava por vezes um pouco mais tarde para fazer uma visita, escrevia-lhes uma carta, mas não ficava preso àquela comunidade por muito que gostasse dela. Cada comunidade vivia a sua própria história, bastava-se a si mesmo, mesmo financeiramente, desenvolvia-se com os seus próprios meios. Cada comunidade tinha as suas características particulares, os seus aspectos bons e maus. Cada uma devia escutar o Espírito que lhe falava com palavras apropriadas à sua situação (Apoc. 2,7).
Mas não obstante a sua autonomia e as distâncias que separavam estas Igrejas, elas conheciam-se mutuamente e sentiam-se em comunhão umas com as outras.

1. Mandavam-se cumprimentos umas às outras: “Saúdam-vos as igrejas da Ásia” (1 Cor 16, 19); trocavam entre si as cartas de Paulo: “Depois de terdes lido esta carta fazei com que ela seja também lida na igreja de Laodiceia” (Col 4, 16); mostravam-se generosas umas para com a noutras, sobretudo para com a Igreja de Jerusalém. Partilhavam entre si as alegrias e as boas novas da sua actividade missionária. Paulo e Barnabé partirão para a igreja mãe a pedido da comunidade, para dialogar com ela, a propósito dos grandes problemas que surgiram no seu seio, mas também para comunicar as maravilhas que Deus operava entre os pagãos (Actos 15, 15). Era uma das constantes dos apóstolos: após o seu regresso reunir a comunidade para contar as maravilhas operadas por Deus no seio das outras comunidades.

2. As comunidades ajudavam-se mutuamente
A comunidade de Corinto enviará Tito e dois homens de boa reputação escolhidos pela comunidade, à igreja de Roma, não só para a ajudar nas suas necessidades mas também para com eles dar graças a Deus (2 Cor 9, 12).
O próprio Paulo irá pessoalmente como delegado da igreja de Roma a Jerusalém levar a esmola dos romanos para que as tensões entre ele e as comunidades nascidas tanto do paganismo como do judaísmo fossem atenuadas e a comunhão existisse entre as várias comunidades, mau grado a sua diversidade. Ele pede aos Romanos para que rezem afim de que a sua iniciativa fosse bem aceite pelos “santos” (Rom 15, 26-31).
A comunidade de Corinto envia a sua equipa dirigente, Estéfanes, Fortunato e Arcaico ter com Paulo, pois devido às perturbações existentes na comunidade, não sabiam exactamente o que fazer. Paulo envia-lhes Timóteo e escreverá uma carta para restabelecer a calma (1 Cor 4, 17).
À comunidade de Filipos, Paulo enviará dois dos seus colaboradores, Timóteo e Epafrodito.
Aos Colossenses, aos Efésios, a Filémon, é ainda a chegada de um delegado da igreja junto de Paulo, Epafras, que lhe faz escrever a sua carta.
Estas cartas mostram qual o papel de Paulo e seus colaboradores nas relações entre as igrejas locais e os apóstolos. Mesmo não conhecendo pessoalmente os cristãos de Colossos e da Laodiceia (Col 2, 1), ele defende que deve estar em comunhão com eles, para os estimular e encorajar (Col 2, 2), mostrando assim a sua solidariedade com Epafras, que era o responsável da igreja local.
S. Paulo dirá aos Gálatas (Gal 2,2) que se o Evangelho que ele pregava aos gentios não tivesse sido aprovado pela comunidade mãe, ele teria tido a impressão de “correr em vão”. Fora da comunhão, toda a actividade missionária deixava de ter sentido. Sobretudo nas cartas que escreveu durante a sua terceira viagem, ele procura reforçar o sentimento de solidariedade das comunidades que fundava entre pagãos para com a comunidade de Jerusalém que vivia um momento difícil (1 Cor 16, 1-4). A importância de estar em comunhão com a Igreja-Mãe era tão importante, que ele não hesitou em fazer-lhe uma última visita, bem sabendo que arriscava a prisão e a morte. Para ele, a unidade e a comunhão eram um valor tão importante que valia bem a pena morrer para o salvaguardar.

Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Fim do artigo)
Foto: DR

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A MISSÃO E A PARTILHA DOS TESOUROS DAS IGREJAS

Palavra de Paulo: 1ª Cor 16, 5 até ao fim

Uma das constantes da teologia missionária de hoje é a leitura da missão como comunhão de Igrejas. S. Paulo aparecia, nas comunidades que fundara, como o ministro da comunhão, aquele que punha as Igrejas em comunhão umas com as outras: não era de nenhuma Igreja em particular mas pertencia a todas: era um elo de ligação entre todas as comunidades.

1. A comunhão na Igreja das origens

Esta é uma das constantes na Igreja dos Actos do Apóstolos: a preocupação por ligar toda a actividade missionária à comunidade, sobretudo à Igreja mãe de Jerusalém. A comunidade segue o apostolado de Filipe na Samaria e depois o de Pedro na borda do mar. Assim, Pedro e João vão à Samaria, para pôr em comunhão a Igreja que aí nascia pela evangelização de Filipe (Actos 8, 5-14). E é em comunhão que os catecúmenos evangelizados por Filipe recebem o Espírito Santo. Pedro e João impõem as suas mãos aos novos baptizados, para lhes conferir o Espírito Santo (Actos 8, 15-17). Comunidades novas não podem nascer senão em comunhão com a Igreja Mãe. Pedro baptizando Cornélio e a sua família, por um imperativo claro nascido da visão que lhe tira as últimas resistências, sente necessidade de obter a aprovação da comunidade (Actos 11).

Quando é fundada a Igreja de Antioquia, mercê de circunstâncias um pouco fortuitas, de novo a comunidade de Jerusalém se sente interpelada a fazer a comunhão, enviando para isso um homem de confiança, Barnabé. Por outro lado, a comunhão é recíproca, pois que logo que a comunidade de Antioquia teve conhecimento da necessidade em que se encontra a Igreja de Jerusalém, envia para lá socorros (Actos 11, 27-30).

E quando se trata ainda de saber os dados da evangelização a fazer, é em comunidade que o assunto é estudado. A narração de Lucas sobre as deliberações do concílio de Jerusalém deixam supor que houve várias reuniões preparatórias. Uma assembleia plenária faz primeiro surgir um problema levantado em Antioquia (Actos 15, 4-5), em seguida uma reunião restrita de delgados de Antioquia com os dirigentes de Jerusalém: os apóstolos e os anciãos (Actos 15,6); daí sairá o comunicado redigido em nome dos apóstolos e os anciãos de Jerusalém (15,23; 16,4). Enfim uma nova assembleia geral no decurso da qual, “os apóstolos e os anciãos com toda a Igreja, decidiram enviar uma delegação a Antioquia”. Toda a comunidade e não só os dirigentes são chamados a intervir no estatuto que deve regular a comunhão entre as duas Igrejas.


Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Continua no próximo Post)
Foto: DR

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A MISSÃO COMO DIÁLOGO

A Missão da Igreja – e do Cristão, enquanto membro da Igreja e discípulo de Jesus – é o cumprimento do Mandato de Jesus que veio, falou e está entre nós, realizando a Missão que o Pai Lhe deu. Esta é apresentada por Jesus em Lc 4, 18-19 e sintetiza-se no anunciar a Boa Nova como paz, alegria, saúde e libertação.
Jesus, como Filho de Deus e Seu Enviado, tinha (e tem) o “monopólio” da Missão que procurou anunciar e quer continuar a fazê-lo connosco e por nós, fazendo vir fora da pessoa as centelhas dos valores de paz, verdade e bem que lhe estão no coração, desde a criação à imagem e semelhança de Deus.
A partir do Mandato confiado aos Seus amigos (cf Mt 28, 19-20), estes são convidados a anunciá-lo, criando comunhão, na vida e no testemunho, partilhando a sua experiência de escuta e de seguimento com as experiências, também ricas e pessoais de cada pessoa humana, que, com rectidão, procure e ame a verdade e ame e queira o bem.
A Missão do membro da Igreja e do discípulo de Jesus consistirá, sempre, numa proposta de vida, vivida em reciprocidade de consciências que, na escuta e na procura recta e séria da verdade, se abre e motiva ao diálogo, respeitador e amigo, com cada irmão que é, já em si mesmo, uma centelha de verdade e uma presença de Jesus Cristo (cf GS 16).
Nesta Missão, contam mais as pessoas e os factos que as palavras, pois a Fé do conhecimento precisa do teste e da prova do amor e da relação que consiste em viver e cumprir o fundamental da Missão que se torna mesmo o distintivo da pertença (cf Jo 13, 34-35).
Anunciar o Evangelho e ser Missionário no cumprimento da Missão de Jesus Cristo não é colocar-se do lado da verdade frente ao lado das pessoas; será sim e sempre sintonizar-se na comunhão com as pessoas, colocando-se na escuta e no seguimento da Pessoa que é Caminho, Verdade e Vida. Este espírito conduz ao diálogo, na comunhão para a escuta e nunca é cedência nem fraqueza; é, sim, respeito pela Pessoa, pela Verdade e pela Missão que vem do Pai. Ele comunica o conteúdo desta Missão (paz, alegria, saúde e libertação) a todos os Seus filhos, ao modo da cultura e das circunstâncias em que cada um está e vive, e somente o Evangelho é capaz de colocar em condições de acolhimento da Missão as realidades que O não conhecem.
Este momento é inculturação, quando, sem destruição da cultura e das realidades pessoais em que cada um vive, uma e outras são enriquecidas pelo conteúdo da Missão e se abrem aos valores que são ‘mais valia’ na realização concreta, enquanto acrescentam paz, alegria, saúde e libertação aos valores naturais que conhecem e promovem. Esta interculturalidade beneficia, sem dúvida, os cristãos missionários e os destinatários da Missão, pois uns e outros partilham, dialogam e aprendem, reciprocamente, os muitos valores que existem nuns e noutros, numas e noutras culturas, recebendo, de uma forma inculturada e à maneira de pessoa livre e amada por Deus, as graças da Missão.
Por isso, somente pode ser Missionário ou agente da Missão do Evangelho quem sabe amar, quem sabe escutar e quem sabe partilhar, em comunhão, o tesouro que cada um é e tem, recebido no dom da vida e que é chamado a viver e a fazer crescer em procura constante da Pessoa que é Fonte de Verdade, de Caminho e de Vida para toda a humanidade.


D. Ilídio Leandro
Bispo de Viseu

quinta-feira, 31 de julho de 2008

A ORAÇÃO NA FONTE DA MISSÃO

3. As chaves de leitura da oração em Paulo


1. A oração ocupa um lugar central na missão de Paulo. “Rogo-vos, irmãos, por Nosso senhor Jesus Cristo e pela caridade do Espírito Santo, que me ajudeis com as orações que dirigis a Deus por mim, para que me livre dos incrédulos que há na Judeia e para que o auxílio que levo a Jerusalém tenha boa aceitação da parte dos santos” (Rom 15,30).

2. A oração é a marca da comunidade de fé que Paulo queria fundar. “Não vos inquieteis com coisa alguma, mas em todas as circunstâncias apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com muitas orações e preces e com acção de graças. A paz de Deus que ultrapassa todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Jesus Cristo” (Fil 4, 6-7).Desde a sua primeira carta, Paulo tinha proposto a oração como a maneira de ser da comunidade cristã. “Orai sem cessar; e em todas as circunstâncias dai graças, pois é a vontade de Deus, em Cristo Jesus, a vosso respeito” (1 Tes 5,17-18).

3. A oração situa-se no coração da sua vida apostólica. Uma leitura das cartas de Paulo leva-nos a uma primeira constatação: a oração de Paulo é alimentada exclusivamente pela sua actividade apostólica, pelas notícias que recebe das comunidades e os seus projectos apostólicos. Paulo reza a partir do que vive, das suas consolações, das suas tribulações e das suas amizades. Por isso a sua oração está cheia dos problemas que ele vive, das alegrias que marcam o seu apostolado, das esperanças e dos sonhos que tem a respeito das suas comunidades. “Noite e dia dirigimos a Deus as mais instantes súplicas para que possamos ver o vosso rosto e reparar as dificuldades da vossa fé” (1 Tes). As cartas sublinham o intenso compromisso que a oração implica.

4. A oração é partilhada. Paulo partilha a sua oração. Convida os seus leitores à oração e à acção de graças para que também eles descubram a vontade de Deus, especialmente nas assembleias onde o Espírito se manifesta. “Orai sempre. Em tudo dai graças. Esta é a vontade de Deus a vosso respeito” (1 Tes 5,18). S. Paulo não se sente sozinho nas suas relações com Deus. Ele reza com toda a comunidade.

5. Uma oração dirigida ao Pai. Em S. Paulo, todas as fórmulas de oração dirigem-se sempre ao Pai, não a Cristo. “Damos graças a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, nas orações” (Col 1,3). Ou então: “Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo…” (2 Cor 1,3). Isto traduz a profundidade da oração de Paulo.

6. Uma oração enraizada na tradição. A oração de S. Paulo está em sintonia com a oração bíblica. Não é uma oração devocional mas enraizada na mais pura tradição da oração do povo de Deus. Privilegia a acção de graças, o louvor, a súplica, os hinos. As bênçãos e todas as constantes dos grandes orantes do Antigo Testamento. Algumas das suas intervenções orantes são autênticos salmos.

7. A oração no Espírito. A oração para Paulo é a voz do Espírito Santo em nós. “O Espírito ora em nós com gemidos inexprimíveis e faz-nos clamar Abba, ó Pai” (Rom 8, 15).
O Espírito intercede por nós e está no coração da nossa oração. Ele conhece as profundezas de Deus e dá-nos a possibilidade de penetrar nos mistérios da sabedoria de Deus. A oração leva-nos ao coração da Trindade. “De maneira semelhante é que o Espírito vem em ajuda da nossa fraqueza, pois não sabemos o que havemos de pedir nas nossas orações mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rom 8, 26).



Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Fim do Post)
Foto: João Cláudio Fernandes

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A ORAÇÃO NA FONTE DA MISSÃO

2. A oração, uma constante nas Cartas de S. Paulo

Paulo é um apóstolo que vive sempre na presença de Deus. A oração brota das suas cartas, quase espontaneamente, sobre as mais diversas formas. Nas suas cartas, encontramos um manual completo de todas as formas de oração: acção de graças, bênçãos, doxologias, hinos, intercessão e súplica, contemplação e êxtase.

- Acção de graças – A sua primeira carta, a dos Tessalonicenses, começa com uma oração de graças. É a primeira oração que temos do Novo Testamento. “Damos continuamente graças a Deus por todos vós, recordando-vos sem cessar nas nossas orações” (1 Tes 1, 2). A acção de graças é uma constante com que começam e acabam quase todas as suas cartas.

- Bênçãos. É outro modelo de oração frequente em S. Paulo: “Que o Deus da paz que vos santifica totalmente e que é tudo em vós, espírito, alma e corpo, seja guardado sem mancha até à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tes 5,23).

- Doxologias. São as conclusões com que em geral terminam as cartas. É sempre com uma súplica e uma bênção. A mais conhecida é a do final da 2ª Carta aos Coríntios: “A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco. Ámen” (2 Cor 13,13).

- Hinos. Basta recordar os hinos das cartas aos Romanos e aos Coríntios. O hino do amor de Deus (Rom 8,35-37), o hino da glória a Deus (Rom 11,33-36) ou o Cântico do amor no capítulo 13 da 1ª Carta aos Coríntios.

- Intercessão e súplica. É uma forma de oração muito frequente em Paulo: “Deus me é testemunha de como constantemente me lembro de vós, pedindo sempre nas minhas orações que tenha finalmente ocasião de ir ter convosco, assim Deus o queira” (Rom 1,9-10). Outro exemplo: “Noite e dia dirigimos a Deus as nossa súplicas para que possamos rever o vosso rosto e reparar as dificuldades da vossa fé (1 Tes 3,10).


- Contemplação do mistério. Alguns inícios das cartas são verdadeiramente orações profundas de um contemplativo que mergulha nos mistérios de Deus. Recordemos apenas o “Bendito” com que ele abre a Carta aos Efésios. É sem dúvida a oração de um místico, à maneira do prólogo do evangelho de S. João. “Bendito seja o Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo…

Oração e missão são duas coordenadas inseparáveis em S. Paulo. Paulo dá graças e suplica “sem cessar” (1 Tim 2,2; Rom 1,10) e em “todo o tempo” (1 Cor 1,4; Flm 1,4; Rom 1,10). Diz mesmo que reza “noite e dia” (1 Tes 3,10). As suas exortações vão no mesmo sentido: “Rezai sem cessar” (1 Tes 5, 17), “Sede assíduos à oração”(Rom 12, 12). As expressões “sem cessar” e “em todo o tempo” falam de uma oração regular, segundo as raízes judaicas de Paulo.


Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Continua no Próximo Post)

Foto: Lúcia Pedrosa

terça-feira, 29 de julho de 2008

A ORAÇÃO NA FONTE DA MISSÃO

1. O ritmo da oração nos Actos dos Apóstolos


Palavra de Paulo: Rom 8, 9-17

A oração ocupa um lugar incontornável na missão dos Actos dos Apóstolos. Ela anima e acompanha a missão.

- É durante uma celebração que nasce a primeira viagem missionária aos pagãos: “Estando eles a celebrar o culto em honra do Senhor e a jejuar, disse-lhes o Espírito Santo: separai Barnabé e Paulo para o trabalho a que eu os chamei”(Actos 13,2).

- O anúncio de Paulo começa sempre com a celebração semanal na sinagoga, que por vezes é mesmo chamada oração (Actos 16, 13-16).

- A abertura aos pagãos é motivo de louvor a Deus: “Ao ouvirem isto, os pagãos encheram-se de alegria e glorificavam a palavra do Senhor; e todos os que estavam destinados à vida eterna, abraçaram a fé” (Actos 13,48).

- A confirmação dos coordenadores missionários é acompanhada de oração e jejum “Depois de lhes terem constituído anciãos em cada igreja, pela imposição das mãos, e de terem feito orações acompanhadas de jejum, recomendaram-nos ao Senhor em quem tinham acreditado” (Actos 14, 23).

- Paulo reza pelos chefes da comunidade de Éfeso em Mileto: “E agora, confio-vos a Deus e à palavra da sua graça, que tem o poder de construir o edifício e de vos conceder parte na herança com todos os santificados” (Actos 20,32).

- Na prisão de Filipos, acompanhado de Silas, Paulo passa a noite a rezar e a louvar a Deus: “Cerca da meia noite, Paulo e Silas, em oração, entoavam louvores a Deus, e os prisioneiros escutavam-nos” (Actos 16,25).

- O testemunho de Paulo leva o povo a louvar o nome do Senhor: “Todos os habitantes de Éfeso, judeus e gregos, souberam da ocorrência e todos se encheram de temor sendo enaltecido o nome do Senhor Jesus” (Actos 19,17).

- Paulo participa na oração das comunidades: em Tróade toma parte na fracção do pão “No primeiro dia da semana, estando todos reunidos para partir o pão, Paulo, que devia partir no dia seguinte, começou a falar com eles e prolongou a sua pregação até à meia noite” (Actos 20, 7).

- Em Mileto, Paulo reza com o povo. “Depois destas palavras, ajoelhou-se com eles e orou” (Actos 20, 36).

- Em Tiro, a comunidade foi com ele até à praia e todos juntos rezaram (Actos 21,5).

Vemos, portanto, que a oração é particularmente importante para o envio missionário, para a escolha dos responsáveis da comunidade, para as provações e dificuldades e para a procura da vontade de Deus na história da salvação.


Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Continua no Próximo Post)
Foto: DR

segunda-feira, 28 de julho de 2008

VOLUNTARIADO MISSIONÁRIO

Um marco no futuro da missão da Igreja

“A seara é grande e os voluntários missionários são poucos”. Parafraseando o Evangelho, damo-nos conta de que o campo onde a Igreja é chamada a exercer a sua Missão não pára de crescer, perante tantas necessidades e urgências da nossa humanidade. Por isso, todos os que nesse campo trabalham são poucos, mesmo que nos últimos anos se tenha assistido a um crescimento gradual do número de voluntários missionários, sobretudo jovens, rapazes e raparigas, que deixam a sua família e amigos, partem para outras terras, como testemunhas em nome de Jesus Cristo.

O voluntariado missionário é um novo dinamismo que enriquece a experiência eclesial de fraternidade e solidariedade, cujo desenvolvimento poderá marcar o futuro da Missão da Igreja, neste mundo global e da mobilidade humana. Há várias formas de voluntariado missionário, que tanto pela sua origem ( grupos universitários, paroquias, institutos religiosos, dioceses, etc.), como pela sua preparação, motivação e duração, nos indicam uma grande diversidade que não deixará de ser um sinal dos tempos suscitado pelo Espírito de Deus, em resposta às novas necessidades de trabalhadores para a seara e às novas formas de exprimir a caridade num mundo mais solidário.

Não incluímos nestas formas, todas aquelas grandes organizações, ong´s e outras, que sob a capa da solidariedade e do voluntariado vão usando, em burocracia, salários e logística, uma grande parte do que é destinado aos pobres.

Entre os jovens voluntários há aqueles, mais numerosos, que partem por um curto período de tempo ( de 1 a 3 meses). Esta experiência é sobretudo interessante do ponto de vista pessoal, como enriquecimento humano e cultural e como partilha de outras formas de viver a fé. Nestes jovens há um “ir”, um partilhar, um dar, que nem sempre redunda num “vir”. Ou seja, a experiência é tão curta que o regresso dos jovens ao mundo do estudo ou do trabalho, não lhes permite fazer eco, junto das comunidades que os enviam, da experiência que viveram, nem daí tirar consequências para a sua vida cristã, pessoal ou profissional, . Ou então é um eco virtual feito de fotos, powerpoints, esculturas ou capolanas. É bom este “ir” e oxalá todos os jovens cristãos pudessem fazer esta experiência transcultural, mas não é desta forma de voluntariado missionário que mais a nossa Igreja precisa.

A nossa Igreja em Portugal precisa de voluntários missionários que se queiram dedicar a uma experiência de vida em comum, testemunhando a sua fé, por períodos de um ano ou mais, num outro país onde a Igreja tem mais dificuldade em responder às necessidades dos povos. Quer pela sua prolongada preparação e aprofundada motivação, quer pelas exigências de vida cristã que a experiência de trabalho implica, estes voluntários missionários tornam-se agentes de evangelização, testemunhas de Cristo, arautos de Esperança cujo brilho aponta em duas direcções. Enviados da única Igreja de Jesus Cristo, embora por um tempo parcial que se encaixa na flexibilidade dos tempos de hoje a requerer compromissos ad tempus, eles contribuem para uma maior solidificação dos elos de comunhão que constituem o ser da Igreja. Se junto dos povos a quem são enviados, os voluntários missionários constituem um exemplo vivo de abnegação, generosa entrega, em nome da fé em Jesus Cristo; junto das comunidades que os enviaram e recebem de volta são expressão viva do sentido missionário de toda a Igreja e também daquela comunidade específica a que pertencem. E sabemos quanto este “vir” se torna muitas vezes fonte de uma dinamização particular de comunidades cristãs que, de um momento para o outro, se vêem mais unidas em gestos de partilha, apadrinhamento, acolhimento, visitas, etc… Pena é que nem sempre as comunidades cristãs e suas lideranças saibam tirar partido destas experiências para potenciar a partilha, a vivência da fé e o fortalecimento da Igreja Comunhão. As comunidades cristãs que souberam potenciar este dinamismo, esta relação, esta aliança, encontraram mais alegrias que dificuldades, mais crescimento da fé, aumento dos grupos que até atraiu novos membros à vida eclesial. Um outro fruto desta sementeira, embora mais modesto, tem sido o surgimento de vocações missionárias a tempo inteiro, de religiosos e religiosas, que após tal experiência se querem entregar totalmente ao serviço da Missão e que a Igreja continuará a precisar para solidificar os elos da comunhão missionária que unem toda a Igreja.

Em ano de Congresso missionário e de reflexão a propósito da responsabilidade geral da Igreja sobre a Missão ad gentes, precisamos de incentivar o voluntariado missionário a ponto de não descansarmos enquanto cada paróquia ou comunidade cristã do nosso país, não tiver entre os seus membros pelo menos um voluntário missionário, um agente de evangelização e de comunhão, que em todos pode ajudar a reavivar o seu sentido de Missão, como esperamos o faça também o ano Paulino em que todos estamos tão empenhados. “Mandai Senhor, voluntários missionários para a vossa Igreja, em Portugal”!



Pe. José Manuel Sabença
Presidente dos IMAG
( Institutos Missionários Ad Gentes)