sexta-feira, 25 de julho de 2008

HINO DO CONGRESSO MISSIONÁRIO NACIONAL 2008

Vive a missão, rasga horizontes





São horas, são horas!
Portugal, vive a missão!
São horas de partir, (bis)
São horas, Portugal, rasga horizontes!
Responde à história e vai
Levar palavra e pão!
Portugal, vive a missão!

1. Escuta a voz de Deus na voz do vento
E tantas bocas mudas a chamar.
Descobre no silêncio o chamamento
Que chega de outro mar.

2. Não digas “sou feliz” se alguém não é;
Não digas “tenho paz” se alguém não tem.
Só com felicidade, paz e fé
Não salvarás ninguém.

3. Tu sabes onde está a chave certa
Das portas que se fecham à verdade
E sabes o segredo que liberta
Da fome a humanidade.

4. Ninguém comprou o sol que hoje nasceu,
Ninguém privatizou a salvação.
Não és dono da estrada para o céu.
Vai e segue o coração.

Texto: Fr. M. Rito Dias
Música: António Cartageno

quinta-feira, 24 de julho de 2008

ACENTUAR A DIMENSÃO MISSIONÁRIA DA NOSSA DIOCESE

Carta à Comunidade Cristã de Carcavelos

Queridos Irmãos e Irmãs,

Escrevo-vos esta carta em circunstância pouco comum, reconheço-o: a mudança de Pároco apenas um ano depois da sua tomada de posse.
Há um ano, depois das nomeações dos sacerdotes, fui surpreendido pela necessidade de substituir o P. Jorge Anselmo. Não tive outra solução senão pedir ao P. Ildo que interrompesse a sua colaboração missionária na Diocese do Mindelo, Cabo-Verde. O P. Ildo obedeceu-me, em espírito de comunhão com o seu Bispo, o que confirmou o apreço que tenho por ele. Mas não me dei conta que o seu coração tinha ficado em Cabo-Verde, aliás sua terra natal. Confessou-mo agora sinceramente, manifestando-me o desejo de voltar a servir aquela jovem Diocese, com falta dramática de sacerdotes neste seu arranque.
Eu sei que o P. Ildo me obedeceria se eu lhe pedisse para ficar em Carcavelos. Mas senti que havia um apelo do Espírito à partilha de dons entre as Igrejas. Eu desejo muito que esta disponibilidade missionária seja atitude da nossa Igreja diocesana, incluindo o seu clero. Temos falta de sacerdotes, é certo; mas é a partilha dos pobres que mais toca o coração de Deus. A inquietação do P. Ildo vem ao encontro da minha preocupação de acentuar a dimensão missionária da nossa Diocese que, segundo as orientações do Concílio Vaticano II e o desejo do Santo Padre se exprime, também, no envio de alguns sacerdotes em missão.
Estou confiante em que a comunidade cristã de Carcavelos aceitará, neste espírito, a partida do P. Ildo e que o ajudará, espiritual e materialmente, nesta sua missão.
Invocando, para todos vós, a protecção maternal de Nossa Senhora dos Remédios, invoco a Bênção de Deus.

Lisboa, 25 de Junho de 2008.

D. José Policarpo
Cardeal Patriarca
Foto: DR

quarta-feira, 23 de julho de 2008

PERSPECTIVAS DA MISSÃO... V PARTE

A MISSÃO, FESTA DOS POVOS

5. Um olhar de amor sobre a humanidade que nos rodeia

Paulo olha sempre para a humanidade que o envolve e para as comunidades que evangeliza com um olhar de complacência e compreensão. Ele toma sobre si o cuidado de todas as igrejas e faz suas as suas quedas e fraquezas. “Além de tudo isto, a minha obsessão de cada dia: o cuidado de todas as igrejas. Quem é que é fraco, sem que eu o não seja também? Quem tropeça, que eu não me consuma por fora? Se é preciso gloriar-me, da minha fraqueza me gloriarei” (2 Cor 11,28-29). Ele está pronto a ser amaldiçoado, separado de Cristo, contanto que os olhos deles se abram (Rom 9, 2-3). Os Filipenses são a sua alegria e a sua coroa (Fil 4,1) e não tem menos afeição pelos “doidos” gálatas”( Gal.3, 1), mesmo por causa das suas aberrações ele mantém por eles um amor que se assemelha a uma ternura maternal. “Ah meus filhinhos, que na dor eu dei à luz de novo até que Cristo seja formado em vós!” (Gal 4,17)

A respeito de Israel ele “tem no coração uma grande tristeza e uma dor incessante e está pronto a ser amaldiçoado, separado de Cristo, se isso pudesse servir para lhes abrir os olhos”(Rom 9,2-3). Ele diz que tem no coração todos os Filipenses, por terem tomado parte na graça que lhe foi dada nas suas prisões (Fil 1,7-8). O seu afecto para com os Gálatas não é menor, mesmo se eles são insensatos. “Filhinhos meus, por quem de novo sinto as dores da maternidade, até que Cristo seja formado em vós, bem quisera estar agora convosco e mudar a minha voz pois estou perplexo a vosso respeito” (Gal 4,19-20).



Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Fim do Post)
Foto: Samuel Mendonça

terça-feira, 22 de julho de 2008

PERSPECTIVAS DA MISSÃO... IV PARTE

A MISSÃO, FESTA DOS POVOS

4. A dimensão socio-económica da missão

Em Paulo, a missão atinge a vida toda da comunidade, reveste também a dimensão socioeconómica da sua existência.

Paulo canta a caridade como alicerce do seu Evangelho (1ª Cor 13) e mais concretamente organiza uma colecta para os pobres de Jerusalém, colecta que ele chama “serviço da comunhão” (Koinonia) (2 Cor 8,1-6). “Não se pretende que os outros tenham alívio e vós fiqueis em apuros, mas que haja igualdade”. Esta partilha, mais que caridade, para Paulo é justiça social. Ele proclamou que “não havia mais nem judeu nem grego, nem escravo nem homem livre, nem homem nem mulher” (Gal 3,28). A fraternidade, a igualdade e a justiça social eram valores que faziam parte integrante da missão, como o Sínodo de 1972 viria a reconhecer...

Paulo arriscou perder a sua própria liberdade por causa desta transformação das relações étnicas, tomou a defesa do escravo Onésimo e admitiu mulheres nas suas equipas apostólicas, atitudes que eram contrárias ao código vigente daquele tempo. Filémon, um senhor rico, tinha como escravo Onésimo. Paulo prescindindo da questão legal, envia-o ao seu senhor, Filémon e pede que o acolha, já não como escravo mas como “irmão querido” (Carta a Filémon 1,16), seu irmão na fé.

O seu ensinamento sobre a liberdade e a lei, a vida, a morte, o pecado e a graça eram uma doutrina revolucionária. A Lei para os judeus tinha um valor absoluto e criava uma religião de observância, contra a qual Paulo combateu sem dúvidas nem reservas. A lei, sem os valores que ela contém, escraviza e anula a pessoa; só a graça liberta. É toda a doutrina da Carta aos Romanos.
É uma conversão profunda das estruturas opressivas, injustas e aniquiladoras, que ele anuncia. A missão para Paulo não era uma ideologia abstracta: idealista, espiritualista, mas mexia com as estruturas sociais pela sua raiz.

Para Paulo, o pecado e a morte não eram factores apenas individuais, mas potências que encadeavam e abafavam a imagem de Deus no homem. O pecado social, sem rosto, de que falava João Paulo II era, já para Paulo, um pecado em que todos tinham culpas.
Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Cont. no próximo Post)
Foto: Lusa

segunda-feira, 21 de julho de 2008

PERSPECTIVAS DA MISSÃO...III Parte

A MISSÃO, FESTA DOS POVOS

3. A missão como diálogo ecuménico

No início os primeiros cristãos só anunciavam o Evangelho aos judeus, pois na Palestina só moravam judeus. Mas a perseguição a quando da morte de Santo Estêvão dispersou os cristãos pelo mundo (Actos 11,19). Alguns chegaram a Antioquia e começaram a falar de Jesus também aos pagãos, isto é, aos Gregos (actos 11,20). Barnabé foi ali enviado para ver o que se passava e fazer o devido discernimento. Viu e achou bem e chamou Paulo para trabalhar com ele. “Durante um ano inteiro mantiveram-se nessa cidade e ensinaram muita gente. Foi em Antioquia que, pela primeira vez os discípulos de Cristo começaram a ser tratados por “cristãos” (Actos 11,26). De Antioquia a novidade espalhou-se por todo o mundo, sobretudo a partir das viagens de Paulo.

Ao redor das sinagogas das várias cidades do Império foram surgindo grupos de pagãos que simpatizavam com o judaísmo. Havia os prosélitos e os tementes a Deus. Os prosélitos observavam integralmente a lei de Moisés, eram mesmo circuncidados, não eram muito numerosos. Os tementes a Deus ou adoradores de Deus observavam só algumas partes da Lei, frequentavam a sinagoga, mas não aceitavam a circuncisão. Estes eram o grupo mais numeroso e mais atento a Paulo (Actos 13,16.26). Para estes, o Evangelho era realmente uma Boa Notícia e aceitavam-no com muita alegria (Actos 13,48; 15, 31; 17,4.12). Para eles o Evangelho era uma festa.

Mas o confronto dentro da fé verifica-se também no terreno cultural e religioso do helenismo, onde predominavam os grandes movimentos filosóficos e os diferentes cultos e associações religiosas. Paulo viu-se confrontado com o epicurismo e o estoicismo, duas correntes filosóficas preocupadas com propagar a arte de viver feliz mediante a busca de um equilíbrio sábio.

Ao lado destas filosofias populares persistiam os antigos cultos e tradições religiosas que impregnavam a vida social e económico das cidades. Em Éfeso Paulo entrará em choque com a corporação dos ourives, chefiada por Demétrio, que defendia os interesses dos fabricantes de ex-votos às divindades pagãs, como também o culto da grande deusa – mãe Artemis, protectora da cidade e de toda a Ásia (Actos 19,24-32). Festas, sacrifícios e procissões segundo um calendário fixo, regulavam a vida religiosa das grandes cidades. Templos, estátuas de várias divindades tutelares constituíam o cenário religioso das cidades helenísticas. Em Atenas, o número de estátuas e altares votivos impressionou fortemente Paulo (Actos 17,16). O discurso de Paulo no areópago de Atenas é um modelo de anúncio cristão, que procura interpretar as esperanças humanas que se envolvem nas melhores aspirações da religiosidade e cultura helenística (Actos 17,22-31).


Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Cont. no próximo Post)
Foto: João Cláudio Fernandes

sexta-feira, 18 de julho de 2008

PERSPECTIVAS DA MISSÃO... (CONT.)

A MISSÃO, FESTA DOS POVOS

2. A missão como encontro de culturas

A segunda parte dos Actos dos Apóstolos, através de Paulo, apresenta um rosto novo da missão. Paulo lança uma campanha de evangelização planificada: passa dos judeus para os pagãos, vai de Antioquia da Síria a Chipre e à Ásia Menor, da Ásia Menor passa para a Europa. Em três campanhas que nos fazem lembrar Alexandre Magno, implanta a fé em todos os grandes centros do mundo romano. Antioquia, Éfeso, Tessalónica, Atenas e Corinto. Ele inicia um ciclo de missão que para o autor dos Actos dos Apóstolos se tornará paradigmático para as gerações futuras.
Atenas era o lugar ideal para Lucas ilustrar a relação entre o evangelho e a cultura. O primeiro encontro de Paulo realiza-se no areópago, na praça central, onde se encontra não somente o mercado, o tribunal, mas também onde se travam todas as discussões sobre filosofia e religião. Neste ambiente, Paulo propõe o evangelho já não na sinagoga, mas num contexto leigo e profano, o centro cultural (Actos 17,16-17). No areópago de Atenas Paulo encontra alguns filósofos representantes das correntes do pensamento em moda: o epicurismo e o estoicismo.
No seu ministério Paulo encontra também as grandes realidades políticas do mundo romano, logo desde a sua primeira etapa, em Chipre, onde converte o pró-consul Sérgio Paulo (Actos, 13,4-12).
Encontra também o grande comércio greco-levantino com a conversão de Lídia, negociante de púrpura, em Filipos, a indústria do couro e das tendas com Áquila e Priscila, a arte da fundição do cobre, com Alexandre (2 Tim 4,14).
Encontrou as mais diversas culturas nas cidades que evangelizava e que eram formadas por emigrantes e estrangeiros vindos de todas as distâncias: os Gálatas, cuja língua desconhecia, os gregos, judeus, romanos, egípcios, orientais, a cultura ateniense, quando lidou com os epicuristas e estóicos que o quiserem ouvir no areópago de Atenas, etc.
Encontrou diversas religiões: os judeus, os judeo-cristãos, os tementes a Deus, os prosélitos, os discípulos de Artemisa, os pagãos, os cultos orientais, a religião pagã, o deus desconhecido do areópago de Atenas.
Encontrou as diversas profissões daquele tempo: filósofos, epicuristas, estóicos, soldados, vinhateiros, marinheiros, magistrados, tendeiros, fundidores de cobre, os astrólogos e adivinhos de ciências ocultas, etc.
Encontrou os mais diversos estratos sociais: nobres, homens livres, escravos, libertos.
Em geral, salvo o caso de Artemisa em Éfeso, o seu encontro com estas diferentes culturas é frénico, isto é: Paulo dirige-se a este mundo com acolhimento e simpatia. O encontro do Evangelho com as realidades terrestres é pacífico e simpático.
Assim, a primeira imagem que temos da missão de Paulo é a imagem de uma missão itinerante, que atravessa as mais diversas culturas e que procura enraizar o evangelho nos valores locais.

Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Cont. no próximo Post)
Foto: João Cláudio Fernandes

quinta-feira, 17 de julho de 2008

PERSPECTIVAS DA MISSÃO...

A MISSÃO, FESTA DOS POVOS


Palavra de Paulo: Filip 1, 1-11

A primeira imagem que recolhemos da leitura dos Actos dos Apóstolos, a respeito de Paulo, é a imagem de um conquistador. É a imagem que está no átrio da basílica de S.Paulo em Roma: um conquistador com a espada na mão. Sabemos que esta espada é a espada do martírio, mas isso não é evidente à primeira vista: parece antes a espada de um conquistador da fé, uma espécie de cruzado.

O apóstolo infatigável, sempre em viagem, de malas feitas, levando o Evangelho a terras e povos cada vez mais distantes, a estratégia inspirada alargando progressivamente as fronteiras da fé cristã é a imagem Paulina que guardamos na memória. É uma visão militante, um tanto quanto triunfalista mas que está longe da verdadeira imagem de Paulo que os Actos dos Apóstolos nos apresentam. Vale a pena focá-lo um pouco mais de perto.

1. A missão como festa

a) O dia do Pentecostes em que nasceu a Igreja Missionária é-nos apresentado nos Actos dos Apóstolos como uma grande festa. Ali estavam reunidos todos os povos de então: Partos, Medos, Elamitas, Habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia cirenaica, colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes. E ali ouviram os apóstolos em cada língua anunciar e cantar a maravilhas de Deus. A missão começou portanto por ser uma grande festa que uniu povos diferentes e culturas diferentes (judeus e prosélitos, cretenses e árabes) em que não faltou o canto e o louvor. Não foi efectivamente um funeral.

b) Também para S.Paulo anunciar o Evangelho era levar uma boa notícia e como tal era sempre uma festa. No início de quase todas as suas cartas ele confessa a alegria que sentia com a evangelização das suas comunidades. Elas eram a sua coroa de glória. Por isso o louvor e a acção de graças são uma das constantes das suas cartas. Ele saberá ver até nas provações e dificuldades que a missão lhe causava um pretexto para se gloriar e festejar. A participação nas chagas e na cruz de Cristo era para ele um motivo de alegria e de festa. Este coração sempre apaixonado pelo Senhor, que anunciava, dava-lhe aquela liberdade de Espírito de que tem sempre uma alegria e uma boa notícia a comunicar.
A missão era uma festa também pelo conhecimento de pessoas que adquiria, pelas relações humanas que criava, pelos amigos que fazia. No início e no final das suas cartas ele não resiste à tentação de os recordar, saudar e recomendar-se a eles.


Pe. Adélio Torres Neiva, CSSp
In "S. Paulo e a Missão sem Fronteiras" - Ed. LIAM
(Cont. no próximo Post)
Foto: João Cláudio Fernandes