sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

MISSÃO CRISTÃ: NOVOS PARADIGMAS - (2ª Parte)


Caminhos novos

A reflexão sobre a missão cristã hoje no mundo foi levada a cabo no congresso em dois tempos. Num primeiro foram analisados os «novos caminhos da missão», numa reflexão oferecida pela Pe. José Ornelas, actualmente superior-geral dos Sacerdotes Dehonianos. Tratou-se de uma abordagem mais global na qual foi afirmada a universalidade como dimensão constitutiva da Igreja, que se identifica como comunidade depositária de um evangelho que é de, para, todos. Foi naturalmente sublinhada a multiculturalidade e o facto de a Igreja não se poder identificar nem com uma cultura nem com um poder político; e sublinhou-se que a distinção entre países cristãos e não cristãos é hoje insustentável. A multiculturalidade e a deslocação da Igreja para os países do Sul trazem consequências para as igrejas locais do Norte e o desafio de se passar de um eurocentrismo para um mais claro universalismo. Sem, naturalmente, se cair nos extremos de «demonizar» as igrejas do Norte, a enfrentar sinais de crise, ou «idealizar» as igrejas do Sul, a oferecerem sinais de notável vitalidade. Para actuar os novos paradigmas da missão, concluiu o P.e José Ornelas, é necessário partir de Cristo, já que o anúncio é a dimensão central da missão e as outras vêm depois; e partir da igreja local, já que a igreja local é o sujeito da missão e hoje falamos, portanto, de «todas as igrejas para todo o mundo». Neste sentido, o desafio para a igreja local (paróquia, diocese…) é colocar a evangelização no centro da sua vida, e para os missionários é desenvolverem uma missão em comunhão e fraternidade, longe de protagonismos individuais. O regresso da missão à igreja local tem, assim, nos leigos protagonistas de primeira linha, cujos ministérios é necessário promover. O contexto em que as igrejas locais vivem a missão hoje não pode ser outro senão o do diálogo, do respeito e da reciprocidade.

Num segundo momento, coube ao Dr. João Duque, secretário da Comissão Episcopal da Doutrina da Fé, aprofundar a reflexão teológica sobre a missão. Desenvolvendo o tema «a missão no coração da Igreja» o conhecido teólogo de Braga definiu a missão como «ser a partir de Outro e para o outro», cuja essência é «partir, sair de si para ir ao encontro do outro». Definindo a igreja local como comunidade que existe num determinado espaço e tempo, sublinhou que esta não pode perder a sua universalidade, já que o Deus dos cristãos é um Deus de todos, que envia a todos. Local e universal são duas coordenadas que marcam a vida de cada igreja concreta, chamada a viver uma «universalização localizada» e uma «localização universalizada», a sair de si para ir ao outro, de perto e de longe. O que leva ela para dar aos outros? «Nada, a não ser o facto de ser enviada, o evangelho de quem a envia.»

Pe. MANUEL FERREIRA

Missionário Comboniano

Texto: Revista Além Mar (Outubro 2008)

Foto: João Cláudio Fernandes

(Continua no próximo Post)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

MISSÃO CRISTÃ: NOVOS PARADIGMAS


De 3 a 7 de Setembro passado realizou-se em Fátima o Congresso Missionário Nacional 2008. A colmatar um processo de reflexão e um ano de preparação, a iniciativa pretendeu ser um encontro de Igreja, aberto, um laboratório para pensar e viver a missão cristã hoje, aquém e além fronteiras.

O ponto de partida para o congresso que se propunha «pensar e viver a missão» foi naturalmente uma análise da sociedade e da Igreja em Portugal. A reflexão que começou esta análise coube ao cardeal-patriarca de Lisboa, que falou, na sessão de abertura, sobre «a missão cristã e as incertezas do mundo contemporâneo». Na análise que fazem da sociedade e da Igreja em Portugal, os missionários e as pessoas a eles ligadas tendem a ser algo emocionais, porventura críticos. Por isso, D. José Policarpo não desejou que a sua intervenção fosse vista como crítica das dioceses e do modo com enfrentam a evangelização nos seus territórios e nos seus contextos sociais. As suas palavras, de resto, não se revelaram críticas, mas, mais bem, analíticas da sociedade portuguesa e da sociedade global onde nos inserimos.

Local e global

A intervenção do cardeal-patriarca de Lisboa teve o mérito de fazer ver como a nossa sociedade está condicionada pela sociedade global e pela cultura «plana» que ela promove (o hedonismo, o consumismo, a procura da felicidade aqui e agora) e de ajudar a tomar consciência de que os limites da cultura dominante e a sua falta de certezas (o egocentrismo e o individualismo ético, o ateísmo prático) podem e devem ser vistos, não só como dificuldades, mas também como oportunidades para a missão cristã. O desafio, para esta, é de dar resposta nos momentos cruciais em que a cultura dominante deixa as pessoas sem resposta, é de estar atenta às inquietações do coração humano, de ensinar as pessoas a esperar de novo, depois de experimentarem as desilusões da sociedade e da cultura actuais. Neste sentido, lembrou o cardeal de Lisboa, citando João Paulo II, «evangelizar é sempre remar contra a corrente» e contra muitas resistências… mas algo que vale a pena, essencial para a Igreja. Num outro ponto, mais teológico, a intervenção de D. José Policarpo mostrou como a globalização universaliza as religiões e promove um respeito pelas religiões que as nivela. Neste contexto, o desafio para a missão cristã é redescobrir o carácter único de Cristo, recuperar o sentido de urgência do anúncio cristão e fazer ver a convergência das religiões em Cristo, salvador de todos. 

Analisar e propor

A segunda relação de análise da situação portuguesa coube a D. António Couto, bispo auxiliar de Braga e presidente da Comissão Episcopal de Missões, que falou sobre «as situações ad gentes na Igreja em Portugal». Citando documentos do magistério e de conferências episcopais europeias, o presidente da Comissão Episcopal de Missões falou sobretudo para um público que não estava fisicamente presente neste congresso: os seus colegas bispos, os párocos e responsáveis paroquiais e diocesanos. D. António Couto insistiu na necessidade de conferir ao Cristianismo europeu e português um novo vigor missionário para ajudar os cristãos a sentir e viver a beleza da fé. Ele insistiu nas mudanças de perspectiva (de paradigma) que hoje caracteriza a missão cristã: de uma missão rural para uma missão urbana; de uma evangelização em vistas da salvação das almas e da implantação da Igreja a uma missão que é uma «questão de amor, inadiável e não delegável», que tem na igreja particular o seu sujeito primeiro, que «é fundamento de tudo e deve ter o primado sobre tudo». Para ele, a missão não é apenas um empenho pastoral no meio de outros, mas o horizonte e paradigma constante de toda a acção pastoral. A concluir, o bispo responsável pela comissão de missões apontou propostas concretas aos seus colegas e às dioceses, propostas que vão desde a criação dos centros missionários diocesanos e paroquiais para promoverem a evangelização nos seus contextos, à criação de centros de escuta do Evangelho e de formação e responsabilização dos leigos. O rumo que ele sugeriu é de colocar no centro das actividades o primeiro anúncio cristão, a santidade e autenticidade cristãs, entendidas como «capacidade para sair para fora de si, sair por amor para ir ao encontro do outro e da sociedade».


Pe. MANUEL FERREIRA

Missionário Comboniano

Texto: Revista Além Mar (Outubro 2008)

Foto: João Cláudio Fernandes

(Continua no próximo Post)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

CONGRESSO MISSIONÁRIO 2008, BLOG E VIDA NOVA


Realizou-se, em Fátima, entre 3 a 7 de Setembro, o I Congresso Missionário Nacional. Para os participantes e não só, foi um acontecimento marcante da Igreja Portuguesa, quer pela vivência missionária e riqueza de conteúdos, quer pelas implicações e desafios futuros daí resultantes.

No dizer o Pe. Adélio Torres Neiva (No rescaldo do Congresso Missionário) “antes de mais, sublinhamos a sua realização. Foi um acontecimento que, desde há anos andava a ser sonhado e planeado. Deve-se sobretudo à coragem e persistência da Direcção das Obras Missionárias Pontifícias que, sem olhar a dificuldades, se lançou nesta aventura. A sua preparação e a sua divulgação foram algo que, por si só, já tinha creditado o Congresso.

Efectivamente o seu anúncio foi acolhido e divulgado de tal modo por todos os órgãos de comunicação social mais comprometidos nos espaços da missão, que todos o fizeram seu. Todos ultrapassaram os seus projectos particulares para se abrirem a esta iniciativa que era uma ocasião única de unir as forças a olhar na mesma direcção. O seu anúncio chegou efectivamente a todas as dioceses de Portugal como interpelação e convite”.

Embora o tenhamos bem presente, o Congresso Missionário 2008 faz parte do passado! Com todo este capital de experiência e entusiasmo, sobretudo das camadas mais jovens, como abrir o nosso coração ao sopro do Espírito e aos novos ventos?

A anteceder e na preparação do Congresso, lançámos mão deste blog. Na era das novas tecnologias, a nosso ver, revelou-se um valioso instrumento de trabalho e dinamização. De facto, e de acordo com os nossos dados, foram feitas 5251 visitas e foram vistas 11.289 páginas!

Dadas estas circunstâncias e por sugestão de muitos, decidimos prosseguir com este blog, como espaço de reflexão, diálogo e partilha, tendo em conta o futuro da Missão. Terá agora, no pós-Congresso um novo subtítulo: “REFLEXÃO, PERSPECTIVAS E FUTURO…”

Pretendemos que a dimensão missionária da Igreja em Portugal, seja, por força do Baptismo, mais assumida por cada um de nós.

Pe. Manuel Durães Barbosa, CSSp

Director Nacional OMP

terça-feira, 23 de setembro de 2008

CONGRESSO ONLINE (MAIS LINKS)

Aqui ficam mais alguns links sobre o Congresso

Programa Ecclesia na semana do Congresso

- 2ª Feira:
http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?pagURL=arquivo&tvprog=1115&idpod=16967&formato=flv&pag=arquivo&pagina=2&data_inicio=&data_fim=&prog=1115&quantos=10&escolha=

- 3ª Feira:
http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?pagURL=arquivo&tvprog=1115&idpod=16991&formato=flv&pag=arquivo&pagina=2&data_inicio=&data_fim=&prog=1115&quantos=10&escolha=

- 4ª Feira:
http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?pagURL=arquivo&tvprog=1115&idpod=17018&formato=flv&pag=arquivo&pagina=1&data_inicio=&data_fim=&prog=1115&quantos=10&escolha=

- 5ª Feira:
http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?pagURL=arquivo&tvprog=1115&idpod=17043&formato=flv&pag=arquivo&pagina=1&data_inicio=&data_fim=&prog=1115&quantos=10&escolha=

- 6ª Feira:
http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?pagURL=arquivo&tvprog=1115&idpod=17113&formato=flv&pag=arquivo&pagina=1&data_inicio=&data_fim=&prog=1115&quantos=10&escolha=

ATENÇÃO:
Peço o favor de divulgarem a possibilidade de visualização online do programa Ecclesia (de segunda a sexta) e do programa semanal 70X7. Muitos cristãos desconhecem esta oportunidade. Comparando as visualizações de outros programas religiosos de outras igrejas lá no site, os programas católicos ficam muito atrás. E somos os que dispomos de mais tempo de antena.
Creio que é importante usar este meio de comunicação. O link dos programas, mesmo os que estão em arquivo é:
http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?vid=1&formato=flv&auto=no
No menu do lado esquerdo “entretimento” estão em primeiro e segundo lugar o 70x7 e A fé dos homens (Ecclesia). Basta só clicar.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

FOTOGRAFIAS DO CONGRESSO MISSIONÁRIO

Já estão disponíveis on-line as fotografias do Congresso Missionário 2008.
Para as visualizar basta clicar em:

http://www.opf.pt/congresso/cmn08/index.html

Obras Missionárias Pontifícias
Secretariado do Congresso

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

CONCLUSÕES - CONGRESSO MISSIONÁRIO NACIONAL 2008

Convocados pelo Espírito, por meio dos pastores da Igreja em Portugal, reuniram-se em Fátima, de 3 a 7 de Setembro, oito centenas de participantes portugueses e representantes de diversos países. O dia 6 foi enriquecido com a presença e a juventude do voluntariado missionário.
Dez anos após o Ano Missionário de 1998, o Congresso celebrou, reflectiu e apontou caminhos de futuro para a Missão, a partir do tema: No encontro com Cristo vivo, chamados e enviados para a Missão em Portugal e no mundo, e o lema: Portugal, rasga horizontes, vive a Missão.

Linhas de força

Deus, Trindade de Amor, envia a humanidade toda a fazer do outro um irmão. A Missão é de Deus e, por isso, o baptizado, consciente deste envio ao tomar parte na vida de Cristo, é impelido a ser contemplativo e servo da sua Palavra.
A Missão é tarefa indelegável de cada cristão. Esta concretiza-se no espaço e no tempo da história humana, conhecendo e amando aqueles a quem se é enviado. A vivência comunitária da fé em família, paróquia, diocese ou comunidades de vida consagrada é o testemunho mais credível do anúncio de Deus-Amor.
A Santidade (sair de si por amor) e a Missão (ser enviado por Deus ao diferente) são o húmus vital de todo o cristão e de todas as actividades pastorais.
Com o Concílio Vaticano II (1965), assistimos a uma nova compreensão da Missão. Cada um de nós é, simultaneamente, enviado e destinatário da evangelização. O Espírito é o protagonista da Missão e a Igreja Local o seu sujeito de encarnação e vivência. Nela e a partir dela, surgem e actuam todas as vocações missionárias laicais, consagradas e sacerdotais. O despertar do laicado para a Missão é hoje um dos sinais dos tempos.
Em pleno Ano Paulino, o Apóstolo dos gentios, com o seu itinerário de conversão e missão, é para nós modelo a conhecer melhor e a seguir no zelo e na urgência de evangelizar.
Para além de momento privilegiado de reflexão e partilha, o Congresso foi também uma experiência de comunhão na dor com os nossos irmãos perseguidos na Índia e em outras situações de falta de liberdade religiosa.


Propostas


Sentimos o coração a arder e desejamos que toda esta riqueza possa contribuir para a Igreja em Portugal viver mais em Missão. Por isso, como Congressistas, propomos que:
1. A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) promova uma melhor coordenação e integração das diversas áreas pastorais para todas serem fecundadas pelo dinamismo missionário e anseio de santidade.
2. A CEP, partindo do Congresso Missionário e do Ano Paulino, avive a vocação missionária de todos os cristãos e prepare um documento-base para a Missão em Portugal.
3. Cada Igreja Local incentive a criação de estruturas e dinâmicas que demonstrem a consciência e urgência do anúncio do Evangelho: Secretariado diocesano missionário, grupos missionários paroquiais, semanas de animação missionária, geminações, voluntariado, sacerdotes "fidei Donum", institutos de vida consagrada...
4. Cada diocese promova, oportunamente, um Congresso Missionário Diocesano.
5. Promova-se formação missionária às crianças, jovens, adultos, seminaristas, consagrados e sacerdotes, de acordo com o novo paradigma de Missão.
6. Fomente-se, com espírito de solidariedade e subsidiariedade, a comunhão e a partilha de fé, de pessoas - numa dinâmica de partir e receber - e de bens entre as diversas Igrejas.
7. Ajude-se cada cristão a crescer até à estatura de Cristo: Sacerdote que celebra a liturgia e oferece a sua vida pela salvação de todos; Profeta que proclama a Palavra de Deus e denuncia as injustiças e contravalores da sua sociedade e cultura; e Rei que serve com caridade os mais desprotegidos e excluídos.

Num mundo global e em mudança, à procura de sucesso mas infeliz, queremos viver em Missão e anunciar Cristo Vivo ao mundo, sendo profetas da esperança e rasgando novos horizontes.

Fátima, 7 de Setembro de 2008
Os participantes no congresso missionário nacional
Foto: João Cláudio Fernandes